TORONTO — Vicentina Pede Desculpas estreou mundialmente no último sábado, 12 de setembro, no Toronto International Film Festival (TIFF), com Gabriel Martins na direção e Rejane Faria no papel central. Depois da passagem pelo Canadá, o longa será exibido no Festival de San Sebastián, entre 18 e 26 de setembro, e no Festival do Rio, de 1º a 11 de outubro. O lançamento nacional está marcado para 5 de novembro, antes da chegada à Netflix, em 20 de novembro, com distribuição prevista em 190 países.
A estreia ocorre quatro anos depois do período em que Marte Um, também dirigido por Gabriel Martins, disputava a escolha para representar o Brasil no Oscar. O filme ampliou a projeção da Filmes de Plástico, produtora independente de Contagem, em Minas Gerais, e alterou a trajetória dos profissionais envolvidos.
A marca de Marte Um
Para Gabriel Martins, o impacto de Marte Um permanece na carreira e na estrutura da produtora. “Foi um filme que realmente colocou a gente no mundo”, afirmou o diretor, ao lembrar que o longa trouxe novas possibilidades para a realização de filmes e fortaleceu a percepção sobre a Filmes de Plástico.
Nesse intervalo, a produtora participou de novos projetos e chegou à televisão com a série O Natal dos Silva (2025). Também integrou a seção Panorama do Festival de Berlim 2026 com Se Eu Fosse Vivo, Viva, de André Novais Oliveira. Para Gabriel, o trabalho acumulado foi decisivo para a realização de Vicentina Pede Desculpas, que considera o maior filme de sua carreira em volume, orçamento e dificuldade.
O diretor também se tornou pai durante esse período. A experiência, segundo ele, atravessou o processo de criação do novo longa, que preservou a força do projeto e a liberdade criativa da equipe.
Uma história criada a partir de imagens
Apesar da proximidade com uma tragédia que ocorreu em Belo Horizonte, Vicentina Pede Desculpas não foi baseado em um acidente ocorrido em Minas Gerais. Gabriel Martins explicou que a origem do roteiro esteve ligada ao acidente de avião da companhia Germanwings e à imagem da mãe de Sandro, no velório retratado no documentário Ônibus 174, de José Padilha.
A combinação dessas referências levou à construção de uma história sobre uma mãe diante de um luto que é, ao mesmo tempo, coletivo e pessoal. O acidente funciona como um acontecimento capaz de atingir muitas vidas e reunir diferentes experiências de perda.
Rejane Faria no centro da narrativa
Depois de participar de Marte Um, Rejane Faria assume o protagonismo em Vicentina Pede Desculpas. A atriz afirma que as experiências compartilhadas com o diretor e as transformações vividas por ambos alimentaram a construção das personagens. “A nossa vivência, nossa experiência, nossas relações com as pessoas, elas vão construindo essas possibilidades de ter material para criar uma personagem”, disse.
A preparação também envolveu a transformação física de Vicentina. Rejane conta que seguiu as indicações de Gabriel Martins e da equipe responsável por essa construção, mantendo espaço para que a personagem surgisse gradualmente durante o trabalho.
Do circuito de festivais à Netflix
A diferença mais evidente entre os dois filmes está na escala de distribuição. Enquanto Marte Um percorreu o circuito nacional e internacional de forma progressiva, Vicentina Pede Desculpas já foi concebido com uma estratégia global. A Netflix participou do processo e, conforme Gabriel, manteve a confiança no modo de a Filmes de Plástico contar histórias.
A chegada a 190 países amplia o alcance de uma obra profundamente ligada à experiência brasileira. Para o diretor, o interesse está justamente em levar essa história a uma audiência mundial sem retirar dela sua identidade. O filme, segundo Gabriel, não procura facilitar a experiência do público: convoca o espectador a acompanhar a narrativa de maneira atenta e curiosa.
Se for escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027, o longa poderá contar com a estrutura da Netflix em sua campanha. A decisão está marcada para a próxima quarta-feira, 16 de setembro.
Uma participação mantida em segredo
Vicentina Pede Desculpas também preserva uma participação musical ainda não revelada. Trata-se de Miguelzinho do Cavaco, ou Miguel Vicente, artista de 12 anos que reúne mais de 1,4 milhão de seguidores no Instagram. Gabriel Martins adiantou apenas que a presença resultará em uma cena forte e significativa.
A participação segue uma prática da Filmes de Plástico de levar ao cinema pessoas conhecidas por outros universos. Antes, a produtora trabalhou com MC Karol e Toquinho, que participou de Marte Um. Agora, Miguelzinho integra o novo filme.
A trajetória da produtora também inclui artistas como Grace Passô, que esteve em No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurilio Martins, além de atuar em Temporada (2018) e O Dia Que Te Conheci (2023), de André Novais Oliveira. Com Vicentina Pede Desculpas, a produção de Contagem chega a Toronto e coloca novamente o olhar de um cineasta mineiro no circuito internacional.


