Tom Cruise interpreta um magnata do petróleo cuja confiança desmedida em seu próprio poder é colocada à prova depois que uma operação de perfuração provoca o rompimento de uma gigantesca calota polar em direção à Europa. Esse é o ponto de partida de “Digger”, novo filme de Alejandro G. Iñárritu, que chega aos cinemas brasileiros em 1º de outubro.
Um desastre provocado pela ambição
Digger Rockwell se tornou o homem mais poderoso do mundo, mas ignora protocolos de segurança ambiental e os inúmeros e-mails enviados por sua equipe. Quando a consequência de uma de suas missões se transforma em uma ameaça de escala continental, ele se reúne com Ganesh, cientista contratado para auxiliá-lo, e participa de uma cúpula de emergência com o presidente dos Estados Unidos, Compson, além de integrantes do governo e das forças militares.
Os piores cenários se confirmam. Tsunamis atingem a costa da Europa, deixando centenas de milhares de pessoas desabrigadas e provocando mortes. Digger então formula um plano para salvar a população, mas a iniciativa nasce menos de uma transformação pessoal do que de um surto ególatra. O filme usa essa contradição para construir uma sátira pós-apocalíptica sobre a impiedosa ambição humana e a repetição histórica da complacência.
Iñárritu, que estreou na direção em 2000 com “Amores Brutos”, retoma uma trajetória marcada por narrativas dramáticas e tragicômicas, além de uma preocupação intensa com a forma. “Babel”, “Birdman” e “O Regresso” integram essa filmografia. Os dois últimos renderam ao diretor vitórias consecutivas no Oscar de Melhor Direção. Depois de “Bardo”, lançado em 2022, o cineasta retorna com uma produção que amplia o alcance de suas inquietações políticas e ambientais.
Reviravoltas e caricatura política
Ao longo de quase 130 minutos, “Digger” muda repetidamente de direção. A estrutura incorpora reviravoltas metalinguísticas que fazem referência aos filmes de catástrofe e também dialogam com “Não Olhe para Cima”, de Adam McKay. A narrativa se converte em uma jornada espiritual e em uma caricatura deliberada de figuras associadas à extrema-direita, como o presidente Donald Trump e o empresário Elon Musk.
O roteiro, desenvolvido por Iñárritu em parceria com Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman, não transforma seu protagonista em um anti-herói à procura de redenção. Digger é apresentado como alguém de atitudes tão execráveis que se torna reconhecível no cenário sociopolítico contemporâneo. A sátira, assim, não absolve os personagens nem reserva a culpa a uma única figura.
Forma e atuações
A fotografia de Emmanuel Lubezki, colaborador anterior de Iñárritu, reforça a dimensão teatral do projeto. A preferência pela luz natural e o uso recorrente de uma câmera em semi-contra-plongée exploram a sensação de superioridade dos personagens. O resultado combina imagens próximas de pinturas cinematográficas fabulescas com uma atmosfera que exige do público alguma suspensão da realidade.
Cruise se afasta das performances associadas a “Top Gun” e “Missão: Impossível” para compor Digger em registros distintos. O personagem pode soar canastrão no primeiro ato, mas as escolhas ganham sentido conforme a história revela novas camadas.
John Goodman concentra parte importante da atenção como Compson, presidente dos Estados Unidos. Seu desempenho aposta no exagero e em transformações sucessivas, enquanto Sandra Hüller interpreta Emma, meia-irmã de Digger; Michael Stuhlbarg vive o vice-presidente dos Estados Unidos; e Jesse Plemons aparece como Kenny.
A combinação de comédia, drama e suspense faz de “Digger” uma nova incursão de Iñárritu por uma narrativa de grande escala. O filme usa a catástrofe ambiental como mecanismo para expor a ambição, o poder e a incapacidade de reconhecer limites.
