A experiência de interpretar um vampiro levou Caio Mutai a ampliar o interesse por personagens ligados ao terror, ao fantástico e à ficção científica. Em “Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira”, o ator interpreta Yukun, um jovem impulsivo e sedento, enquanto também integra “AYÔ”, série brasileira que estreia neste mês em eventos internacionais.
O longa chegou aos cinemas brasileiros em 17 de setembro. A produção combina terror, fantasia, humor e sátira para contar uma história ambientada na pequena cidade de Furnas Fundas, onde uma disputa eleitoral divide famílias, amigos e vizinhos. Em meio ao conflito, uma força sombria desperta, e uma gangue de excluídos precisa impedir que a cidade seja tomada pela violência.
Um vampiro em formação
Yukun é o integrante mais jovem de seu grupo e também o vampiro transformado mais recentemente. Essas características orientaram a construção de um personagem marcado pela sede, pela impulsividade e pela dificuldade de controlar os próprios instintos. É ele quem desencadeia a desordem central do filme.
Para se preparar, Caio recorreu a diferentes representações de vampiros no cinema. “Drácula”, “Nosferatu”, “Entrevista com o Vampiro” e “Only Lovers Left Alive”, de Jim Jarmusch, estiveram entre as referências observadas. O processo envolveu aspectos como sangue, dentes, fome, mordida, sedução, força, comportamento público e vulnerabilidade.
As obras serviram como repertório, mas não como modelo rígido. A linguagem de “Furnas Fundas” foi construída a partir da combinação entre o texto, os personagens, o visagismo e a fotografia. A caricatura presente nesses elementos conduziu o elenco a uma representação própria, distante de uma reprodução direta das referências do gênero.
O primeiro dia de filmagem já colocou o ator no centro dessa atmosfera. A equipe gravou em uma igreja completamente escura, com sangue cenográfico nas paredes e três caixões no chão. Em determinado momento, Caio permaneceu dentro de um deles depois que a tampa foi fechada. “Agora a brincadeira ficou séria”, afirmou, ao recordar a situação.
Fantasia, sátira e comentário social
O filme se estrutura a partir de uma confluência entre “Incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, a ideia de mortos que retornam como comentário, a sátira de Angeli e a anarquia do texto original de Reinaldo Moraes.
A trama também parte de uma observação sobre o comportamento coletivo. Beto Marquez, diretor da obra, contou que, durante a pandemia, percebeu um país mais interessado em escolher lados do que em enfrentar os próprios problemas. A partir disso, surgiu a proposta de construir uma história não centrada em partidos, mas na tendência de transformar tudo em disputa.
Para Edu Rezende, fundador da Capuri, o cinema pode contribuir para debates relevantes. “Furnas Fundas: Uma fábula gótica brasileira” combina humor e fantasia a temas que estimulam uma reflexão sobre comportamentos, sem se limitar à disputa eleitoral apresentada na narrativa.
A produção é da Midnight Japa, com distribuição da Capuri Filmes. Na história, Bartira e sua gangue de deslocados, figuras ignoradas pela cidade, acabam encarregadas de enfrentar a ameaça que surge quando a campanha eleitoral desperta uma força adormecida há gerações.
Um registro diferente em “AYÔ”
A participação em “AYÔ” apresenta uma linguagem distinta. Criada por Lucas Oranmian e dirigida por Yasmin Thayná, a série chega neste mês ao circuito internacional com exibições no Seriesly Berlin, na Alemanha, e no New York Latino Film Festival, nos Estados Unidos.
Enquanto “Furnas Fundas” exige uma construção física e imaginativa para um ser fantástico, “AYÔ” se aproxima de uma dramaturgia contemporânea e realista. Os personagens foram pensados para parecer próximos do público, como pessoas reconhecíveis nas relações e nos conflitos cotidianos.
Entre o jovem vampiro de uma fábula gótica e os personagens de uma série voltada à experiência contemporânea, Caio Mutai atravessa universos distintos. O trabalho em “Furnas Fundas” também resultou na participação do ator em um curta-metragem de ficção científica, projeto que a equipe pretende desenvolver futuramente em outros formatos.


