Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Entre pesadelos e pistas, Xico Sá narra a procura por PC Farias

Trecho de O Tesoureiro recupera a rotina do repórter em 1993, entre fontes, boates e a busca pelo tesoureiro de Collor.

Entre pesadelos e pistas, Xico Sá narra a procura por PC Farias
Foto: Folhapress

A pergunta sobre o paradeiro de Paulo César Farias atravessava os dias e as noites de Xico Sá. Em junho de 1993, o jornalista acordava com o mesmo pesadelo, recorria a fontes durante a madrugada e ouvia a cobrança até em conversas familiares: onde estava PC Farias?

O episódio integra O Tesoureiro, livro de Xico Sá que será publicado pela Todavia. O fragmento rememora a atmosfera criada pelo desaparecimento do tesoureiro de Fernando Collor depois da decretação de sua prisão. Naquele momento, o caso era acompanhado como uma novela, com audiência superior à do coronel José Inocêncio, personagem de Renascer, exibida pela TV Globo.

Um desaparecimento transformado em saga

Sá descreve a si mesmo como um investigador improvisado, perseguido por uma interrogação que parecia acompanhá-lo pelas ruas de São Paulo. A imagem de Wally, personagem dos desenhos infantis, apareceu nas charges de Angeli como representação do fugitivo. O desaparecido das Alagoas, escreve o autor, parecia mais difícil de encontrar do que o personagem associado ao cartunista britânico Martin Handford.

Em casa, o gato Bulgakov tentava acalmar o jornalista. Sem conseguir dormir, ele telefonava para Brigitte Montfort, codinome de uma fonte próxima da cobertura do escândalo. Do balcão da boate Coquetel Drink's, em Maceió, ela respondia com ironia: “Calma, meu bem, nada de novo no front da República de Alagoas”.

O nome adotado pela informante remetia à espiã da coleção ZZ7, publicada pela Editora Monterrey entre 1965 e 1992. A personagem havia sido criada pelo jornalista José Alberto Gueiros, que assinava os primeiros livrinhos como J. F. Krakberg. O espanhol Lou Carrigan, pseudônimo de Antonio Vera Ramírez, escreveu o restante da obra, cujas capas eram ilustradas pelo gaúcho Benício.

O homem no centro do escândalo

Na narrativa, PC Farias aparece sob diferentes apelidos. Entre os integrantes do grupo ligado ao seu avião, o Morcego Negro, era chamado de dom Pablo. Em Maceió, também era conhecido como Paulinho Gasolina. Sá o apresenta como o tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello e como uma figura associada à ascensão e à queda do presidente, o primeiro eleito por voto popular depois da ditadura no Brasil e também o primeiro a perder o mandato após um processo de impeachment.

A Polícia Federal calculou que o esquema teria desviado pelo menos US$ 1 bilhão da máquina pública. PC reagiu à cifra com a frase: “Chute faraônico da porra”. O dinheiro, segundo o relato, foi distribuído em contas bancárias no exterior, paraísos fiscais e operadores estrangeiros.

A Fiat Elba tornou-se o símbolo documentado do dinheiro ligado ao chamado Collorgate. Antes de a CPI do Congresso revelar o caso do carro, Sá recebeu no endereço do jornal uma carta anônima. O autor, que se identificava como mestre de obras, dizia que PC Farias financiava a reforma de um apartamento de Collor no bairro do Farol, em Maceió.

A carta indicava um escritório de decoração no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro. O jornalista seguiu as informações e confirmou a ligação entre o operador financeiro e a reforma associada à primeira-dama, conhecida como madame entre pessoas próximas ou contrárias a Collor.

A notícia antes da internet

A busca acontecia em uma época de jornais impressos e de circulação massiva. O jornal em que Sá trabalhou por mais de uma década chegava a vender mais de 1 milhão de exemplares aos domingos. A internet comercial ainda não havia chegado ao país —isso ocorreria apenas em 1995—, e a investigação dependia de deslocamentos, conversas e documentos obtidos fora do ambiente digital.

O autor contrapõe esse método ao trabalho jornalístico de 2026, quando informações podem ser consultadas no Google, no ChatGPT e em acervos online de tribunais. Na cobertura dos escândalos anteriores à internet, afirma, os dados precisavam ser encontrados por meio de fontes, visitas e cópias de documentos.

A procura por PC Farias, portanto, não se restringia à localização de um homem desaparecido. Também era uma tentativa de compreender o papel do caixa de campanha que recolheu recursos de empresários para a candidatura de Collor. O medo de uma vitória de Leonel Brizola ou de Lula da Silva, em 1989, teria levado empresários a enviar dólares ao comitê do Partido da Reconstrução Nacional, em um período de inflação superior a 1000% ao ano.

Meses depois, PC Farias seria preso na Tailândia e condenado pelo STF no ano seguinte. Em 1996, foi encontrado morto ao lado de Suzana Marcolino. O crime não foi esclarecido.

No fim do trecho, a investigação ainda está em movimento. Uma música de Elton John toca no rádio do carro conduzido pelo taxista Delmiro, enquanto o Morcego Negro, o avião associado a PC Farias, dá início à viagem.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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