A teologia do domínio ganhou espaço no debate público brasileiro à medida que setores evangélicos ampliaram sua articulação com o poder público e se aproximou o período eleitoral. O conceito reúne correntes teológicas cujos adeptos entendem ter um mandato divino para assumir o controle de instâncias de poder e diferentes áreas da vida pública. A proposta ultrapassa a presença social das igrejas e busca exercer domínio sobre a sociedade.
No Brasil, esse movimento se tornou mais visível a partir de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Durante seu governo, o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” orientou uma agenda associada à defesa da moral cristã e de um modelo tradicional de família. André Mendonça foi indicado para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal como ministro “terrivelmente evangélico”.
Origens e fundamentos
A pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião, situa as origens da movimentação cristã voltada ao controle das estruturas sociais no começo do século XX, nos Estados Unidos. Uma de suas correntes fundacionais surgiu entre cristãos calvinistas, a partir da premissa de João Calvino de que Deus controla todas as coisas. Nesse ambiente, o fundamentalismo religioso se consolidou como uma tentativa de proteger a fé cristã diante das ameaças percebidas na modernidade e do avanço da revolução industrial.
Desse esforço surgiu também a noção de batalha espiritual, entendida como o confronto entre o bem e o mal. Para o sociólogo Rodrigo Toniol, territórios, instituições, cidades e dimensões da vida social podem ser vistos, nessa perspectiva, como submetidos ao domínio maligno e, por isso, passíveis de reconquista em nome de Deus. “Portanto, ‘dominar’, aí, significa antes de tudo fazer prevalecer o bem sobre o mal”, afirma.
Depois da Segunda Guerra Mundial, uma nova vertente passou a defender a ocupação direta de todas as áreas sociais. A interpretação do livro de Gênesis sobre a autoridade humana diante da criação tornou-se uma de suas bases: “Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gênesis 1:28).
O teólogo, antropólogo e professor da Universidade Federal do Paraná Igor Shimura afirma que essa lógica também encontra respaldo no Velho Testamento, que reúne narrativas de guerras realizadas em nome de Deus. Segundo ele, denominações pentecostais e neopentecostais, como a Igreja Universal e a Assembleia de Deus, recorrem com mais intensidade a essas escrituras. Igrejas reformadas, como as presbiterianas, priorizam o Novo Testamento.
As áreas estratégicas
A teologia dos sete montes, ou sete montanhas, organiza o projeto dominionista em áreas consideradas estratégicas: família, religião, educação, política, mídia, artes e economia. A proposta é reestruturar a sociedade a partir de dogmas bíblicos, avançando para além dos limites do convívio democrático.
A maior presença de grupos pentecostais na política ajuda a explicar sua associação frequente ao dominionismo, mas Magali Cunha considera equivocado atribuir o fenômeno exclusivamente a eles. A atuação social, segundo Shimura, faz parte da missão evangélica, mas não deve se transformar em imposição.
O pastor e teólogo Sergio Moreira, autor de A Teologia do Domínio, também rejeita a tentativa de estabelecer uma hegemonia evangélica sobre a Terra. Para ele, o reino de Deus pertence a uma dimensão espiritual, e cabe à igreja ensinar os valores de Jesus, não impor uma fé ou um projeto religioso à sociedade.
Shimura diferencia ainda a atuação de lideranças interessadas em poder da posição do fiel comum. Na avaliação dele, o evangélico médio não pretende dominar instituições ou áreas da vida pública; a apropriação política da teologia do domínio ocorreria entre grupos que associam cargos à ampliação de poder.
Estado e liberdade religiosa
A expansão de um projeto político fundamentado em uma única perspectiva religiosa provoca preocupação em relação ao secularismo do Estado. Magali Cunha afirma que essa garantia é essencial para a liberdade religiosa de todas as crenças e também de quem não professa uma religião.
A pesquisadora alerta que a formulação de leis e políticas públicas baseada em uma única visão religiosa desconsidera a diversidade existente inclusive entre os próprios grupos religiosos. Para ela, essa dinâmica compromete o Estado democrático de Direito.


