Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Ideias, cultura e reportagem
Brasil

A intolerância religiosa transforma diferenças em disputa de poder

Para Carlos Fidelis Ponte, ataques a símbolos religiosos revelam o uso político da intolerância e ameaçam a convivência democrática.

Nossa Senhora Aparecida: por que tanta fúria contra uma mulher pobre e preta?

A multiplicação de ataques a símbolos católicos e a religiões de matriz africana e afro-brasileira revela, para Carlos Fidelis Ponte, uma tentativa de transformar diferenças religiosas em antagonismo político. O autor sustenta que episódios como o chute contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e a associação da santa a uma figura demoníaca não expressam um conflito entre católicos e evangélicos, mas a atuação de grupos fundamentalistas que fazem da fé um instrumento de poder.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida surgiu no século 18. Pio 11 a proclamou Padroeira do Brasil em 1930, e uma lei sancionada por João Figueiredo estabeleceu 12 de outubro como feriado nacional em 1980. Na avaliação de Ponte, o Estado reconheceu uma tradição popular já existente; não foi responsável por criá-la.

Fé, Estado e poder político

O debate ganha outra dimensão diante da declaração de Flávio Bolsonaro de que, caso eleito, decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Para o autor, a Presidência deve governar pessoas de todas as crenças, assim como aquelas que não professam nenhuma. O Estado laico, afirma, impede que uma religião seja imposta às demais.

Ponte recorre ao conceito de Teologia do Domínio para interpretar correntes que veem a ocupação das instituições como parte de uma disputa religiosa. Segundo ele, algumas dessas correntes se aproximam da extrema direita, da qual o bolsonarismo seria uma expressão relevante no Brasil. Essa aproximação, ressalva, não permite identificar todos os conservadores ou eleitores de direita com o fenômeno.

O autor também rejeita a ideia de que a polarização explique, por si só, os excessos políticos. Ele afirma que práticas antidemocráticas não devem ser tratadas como equivalentes quando diferem em projeto, escala e responsabilidade. A referência à Alemanha nazista aparece como exemplo de como preconceitos e antissemitismo podem ser organizados politicamente e conduzidos ao genocídio, sem que isso implique equiparar épocas distintas.

No Brasil, Ponte relaciona essa dinâmica à contestação da eleição de 2022, aos acampamentos que pediam intervenção militar e ao 8 de Janeiro. Ele menciona ainda a colocação de uma bomba em um caminhão-tanque com 63 mil litros de querosene de aviação nas proximidades do aeroporto de Brasília. Em 2024, Francisco Wanderley Luiz lançou um explosivo contra o STF e morreu depois de detonar outro. O artigo também recorda que, durante a pandemia, um apoiador de Bolsonaro derrubou, em Copacabana, cruzes colocadas em homenagem às vítimas da Covid-19. Um pai que havia perdido o filho voltou a fincá-las.

A fabricação de inimigos

Desigualdade, exploração e insegurança podem produzir ressentimento, mas não definem automaticamente seus alvos. Em uma sociedade marcada pela escravidão, pelo racismo e por hierarquias de classe, argumenta Ponte, a política pode direcionar o mal-estar contra pobres, negros e minorias vulnerabilizadas, embora essas pessoas não tenham produzido a desigualdade. Redes sociais e algoritmos ampliariam a exploração de medos, preconceitos e ressentimentos.

Para o autor, mentiras e demagogia não podem orientar quem pretende ocupar a Presidência. A confiança pública dependeria de responsabilidade sobre as próprias declarações. Quando falsidades, contradições e recuos se repetem, ele propõe investigar se há apenas episódios isolados ou um método. Também critica a estratégia de deslocar o debate: quem deve explicações atacaria adversários e criaria um novo assunto. Acusações podem ser apuradas, mas não substituem a resposta à questão original.

O mesmo raciocínio é aplicado ao lema Deus, Pátria, Família e Liberdade. Deus não deveria ser usado para legitimar intolerância; pátria e soberania seriam incompatíveis com uma enorme bandeira dos Estados Unidos hasteada no 7 de Setembro; família não poderia funcionar como instrumento de julgamento moral; e liberdade não deveria valer somente para quem pensa, crê, ama ou vive de determinada maneira. A família brasileira, escreve Ponte, é plural, e os valores devem ser demonstrados pela coerência entre discurso e prática.

Aparecida como símbolo da inclusão

Na conclusão, o autor afirma que a democracia não se limita às urnas: depende também do respeito ao Estado Democrático de Direito, da soberania, da inclusão e dos direitos. Ele descreve o momento como um confronto entre o autoritarismo, a exclusão e a intolerância convertidos em método político e uma sociedade pacífica, inclusiva, criativa e produtiva.

É nesse quadro que Nossa Senhora Aparecida ocupa o centro do argumento. Encontrada por pescadores em 1717, a pequena imagem atravessou três séculos e diferentes regimes até se tornar a representação de uma mulher negra, pobre e popular reconhecida como Padroeira do Brasil.

Ponte defende a proteção de Aparecida, dos terreiros e do direito de cada brasileiro acreditar ou não acreditar. Para ele, essa defesa corresponde à preservação de uma sociedade na qual ninguém imponha sua fé nem seja transformado em inimigo por sua origem, cor, condição social, religião ou modo de vida.

Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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