Posts pagos em redes sociais, entrevistas e relações empresariais aproximaram Flávio Bolsonaro de uma rede internacional ligada a plataformas de previsão eleitoral, veículos digitais e operadores políticos associados à direita. As conexões aparecem em registros empresariais, documentos fiscais, publicações dos próprios envolvidos e declarações públicas, mas não comprovam a existência de uma operação única coordenada para beneficiar o senador.
O perfil Visegrád24, mantido por uma fundação americana e seguido por mais de 1 milhão de pessoas no X, publicou em 30 de abril que Flávio havia ultrapassado Lula nas cotações da Polymarket. A postagem, identificada como parceria paga, alcançou quase 100 mil visualizações. Em 20 de setembro, o perfil voltou ao tema e divulgou que as chances do senador estavam crescendo no site de apostas. A publicação, que passou de 100 mil visualizações, trazia uma imagem de Flávio ao lado de Javier Milei e afirmava que uma vitória dele deixaria quase toda a América do Sul sob governos conservadores.
Antes das publicações comerciais, o Visegrád24 entrevistou Flávio em 4 de fevereiro. A conversa abordou o Supremo, a política externa, a relação com os Estados Unidos e o crime organizado. Em 27 de janeiro, o perfil já havia divulgado trechos de um discurso do senador em uma conferência em Jerusalém.
A plataforma de apostas
A Polymarket é uma plataforma americana de mercados de previsão. Seus usuários negociam contratos relacionados a possíveis resultados de eleições, eventos esportivos e outros acontecimentos. Os percentuais exibidos não correspondem à intenção de voto de uma amostra de eleitores: representam o preço alcançado pelos contratos negociados no mercado.
O acesso à plataforma foi bloqueado no Brasil em abril, porque a empresa não tem autorização para operar no país. Desde junho de 2025, porém, a Polymarket é parceira oficial de mercados de previsão do X.
Em agosto de 2025, o fundo 1789 Capital investiu na empresa. Donald Trump Jr. é sócio do fundo, integra o conselho consultivo da Polymarket e está entre as pessoas próximas a Eduardo Bolsonaro. A plataforma também já pagou criadores de conteúdo para divulgar seus mercados. Em junho, informou à NPR que retiraria o patrocínio de produtores que disseminassem informações falsas sobre eleições.
O selo de parceria paga é exibido pelo próprio X quando o responsável por uma conta declara uma relação comercial envolvendo compensação ou outro incentivo. A marca indica que existe uma relação desse tipo, mas não informa quem financiou cada publicação. As regras do X restringem parcerias pagas com conteúdo político e geopolítico, com exceções avaliadas pela própria plataforma.
Os vínculos com Javier Negre
Javier Negre aparece em diferentes pontos dessa estrutura. Empresário espanhol, ele é vice-presidente da UHN Plus Media Network, registrada na Flórida em novembro de 2025, e dono do La Derecha Diario. A UHN se apresenta no X como uma empresa impulsionada pela Polymarket e publicou ao menos nove posts relacionando Flávio às cotações da plataforma desde 30 de março. Um deles, divulgado em 14 de abril, foi identificado como parceria paga.
Negre também entrevistou Flávio em março, durante a CPAC realizada no Texas. No mesmo período, seus veículos anunciaram uma parceria com o Visegrád24 para lançar uma edição em espanhol do perfil. A conta principal, em inglês, é mantida pela Intermarium Foundation.
Os próprios envolvidos apresentaram UHN, EDATV, Informa Radio e Visegrád24 Español como integrantes de uma aliança destinada a ampliar o alcance nas redes sociais. Essa documentação, contudo, não demonstra que a conta principal do Visegrád24, a UHN, a Polymarket e estruturas de campanha compartilhem sociedade ou caixa comum.
A conexão com Fernando Cerimedo
Fernando Cerimedo, marqueteiro argentino, foi sócio de Negre no La Derecha Diario e anunciou que representaria na América Latina as tecnologias da Campaign Nucleus e da EyesOver. A Campaign Nucleus foi criada por Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump.
Em fevereiro, durante a Hispanic Prosperity Gala, realizada no clube de Donald Trump na Flórida, Eduardo Bolsonaro entregou a Cerimedo o prêmio de consultor político do ano. Na ocasião, afirmou que venceria as eleições de outubro com Flávio e retiraria Alexandre de Moraes da Suprema Corte. Cerimedo agradeceu a Parscale pela tecnologia utilizada em seu trabalho e mencionou atuações eleitorais na Bolívia e em Honduras.
Cerimedo ficou conhecido no Brasil em novembro de 2022, quando transmitiu alegações sem provas de fraude na eleição presidencial. A Polícia Federal o indiciou em 2024 no núcleo de desinformação de uma investigação sobre a tentativa de golpe. A Procuradoria-Geral da República não o incluiu posteriormente na denúncia, por considerar insuficientes as provas de que ele soubesse que as informações eram falsas.
Em 18 de agosto, Cerimedo foi detido na Bolívia e teve a prisão preventiva decretada. O Ministério Público boliviano o acusa de ser mandante de uma tentativa de feminicídio contra Nadia Beller. A defesa nega. Investigadores afirmam ter encontrado, em um apartamento ligado a ele em La Paz, uma estrutura capaz de controlar contas automatizadas e mais de US$ 40 mil em dinheiro. A defesa contesta também a existência dessa estrutura.
Registros eleitorais americanos mostram que a Campaign Nucleus LLC, a EyesOver LLC e a Clock Tower X LLC aparecem associadas ao endereço 3745 Medina Road, Unit C, Medina, Ohio, ou a variações desse endereço. Cerimedo nega qualquer vínculo com a campanha de Flávio e afirma que sua relação com UHN Plus, Visegrád24 e Polymarket é responsabilidade exclusiva de Javier Negre.
Financiamento e limites do que os documentos mostram
O Visegrád24 foi criado na Polônia em 2020 por Stefan Tompson e é mantido pela Intermarium Foundation, entidade americana sem fins lucrativos e isenta de impostos. Em 2024, a fundação arrecadou US$ 852.312, quase tudo em contribuições. Um documento fiscal da DonorsTrust registra repasse de US$ 175 mil à entidade para apoiar o Visegrád24. O registro se refere ao financiamento institucional e não demonstra que esse dinheiro tenha custeado publicações sobre Flávio.
A rede ligada a Negre também divulgou uma informação falsa sobre imigrantes marroquinos em Santa Catarina. A publicação dizia que Lula provocava uma onda migratória no estado. O caso real envolvia 50 marroquinos atendidos ao longo de três meses por uma entidade católica em Florianópolis. Até julho, Santa Catarina havia recebido 57 pedidos de refúgio de cidadãos marroquinos, menos de 2% do total registrado no estado.
As conexões documentadas mostram uma sequência de entrevistas, alianças empresariais e publicações pagas em torno da candidatura de Flávio. Ainda não há contrato localizado entre essa rede e a candidatura, nem prova de que mídia, plataforma de apostas e tecnologia eleitoral integrem uma única operação coordenada.
Também permanecem sem resposta questões sobre quem financiou especificamente os posts do Visegrád24, quem escolheu Flávio como tema, quem intermediou a entrevista de fevereiro e se alguma estrutura estrangeira mantém relação com fornecedores da campanha brasileira.
A Lei das Eleições permite propaganda eleitoral paga na internet apenas nas hipóteses de impulsionamento previstas na legislação e contratadas por atores autorizados. As regras do TSE vigentes em 2026 também proíbem conceder vantagem econômica a pessoas físicas ou jurídicas para que façam publicações político-eleitorais em seus próprios perfis, páginas ou canais.
A campanha de Flávio afirmou anteriormente que não tinha conhecimento dos anúncios e negou relação formal com Cerimedo. O X informou ao TSE que manteria proibidos no Brasil os anúncios políticos e de campanha. A defesa de Cerimedo nega as acusações relacionadas ao processo criminal na Bolívia.


