UBERLÂNDIA — O Instituto Conhecer Brasil (ICB), comandado por Karina Ferreira da Gama, teve como tesoureiro-geral um eletricista que afirma nunca ter exercido a função nem participado das atividades da organização. Jacio de Medeiros Dantas aparece em atas como ocupante do cargo entre 2014 e 2021, mas disse que apenas emprestou o nome a pedido da mãe de Karina.
Documentos também apresentam diferenças entre assinaturas atribuídas a Dantas e a outros integrantes da direção do instituto. As rubricas mudam entre atas da própria entidade e não coincidem com registros públicos associados às mesmas pessoas. As divergências podem indicar fraude documental.
O ICB é dirigido pela dona da produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em 2024, a organização assinou com a Prefeitura de São Paulo um contrato de R$ 108 milhões para instalar Wi-Fi público na capital, durante a gestão de Ricardo Nunes, do MDB. O acordo é investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de irregularidades.
A Polícia Federal também apura o desvio de recursos de emendas parlamentares destinados ao instituto. Entre os valores investigados estão R$ 2 milhões enviados pelo deputado federal Mario Frias, do PL, roteirista e produtor-executivo de “Dark Horse”.
O tesoureiro que não participava da entidade
Dantas contou que Karina estava formando uma organização para desenvolver um projeto de dança e precisava indicar pessoas para diferentes funções. Ele disse que aceitou emprestar o nome, mas não manteve contato com ela e não tinha tempo para atuar no instituto.
“Não, nunca [atuei como tesoureiro do ICB]. Até porque eu tenho outro trabalho”, afirmou Dantas. Ele também declarou que nunca participou de assembleias ou reuniões, embora seu nome esteja nas listas de presença desses encontros.
A função de tesoureiro envolve a administração dos recursos financeiros, incluindo o controle de pagamentos, recebimentos e do caixa. Apesar disso, Dantas aparece como tesoureiro-geral em atas de diferentes gestões e como secretário de assembleias. Em 29 de setembro de 2014, assinou documentos relacionados à eleição de Karina para a presidência. Também aparece em uma reforma do estatuto de 2015.
A assinatura atribuída a ele nesses registros é diferente das rubricas presentes em uma ata de 2 de outubro de 2017 e em sua carta de renúncia, de janeiro de 2020. Depois de receber imagens dos documentos, Dantas disse que nenhuma das duas assinaturas questionadas era sua.
A comparação com registros de um processo judicial do qual o eletricista participa apontou semelhança entre sua assinatura oficial, inclusive a de sua carteira de motorista, e as rubricas de 2014 e 2015. Já as assinaturas presentes nos documentos de 2017 e 2020 são totalmente distintas.
Outras assinaturas sob questionamento
A ata de outubro de 2017 também traz divergências em assinaturas atribuídas a Rafael Tadeu da Silva Santanna e Karina Pereira Penha. Santanna teria ocupado a secretaria-geral do ICB entre 2014 e 2017. A rubrica dele no documento de 2017 não coincide com a registrada na ata de 2014 nem com duas assinaturas localizadas em um processo judicial.
Penha teria assumido a secretaria-geral depois da renúncia de Santanna. A assinatura atribuída a ela na ata de 2017 difere da que aparece em uma procuração assinada em janeiro de 2023 para que um advogado a representasse em um processo contra uma empresa.
Santanna disse inicialmente que não tinha informações a fornecer porque não mantém contato com Karina Ferreira da Gama desde 2018. Depois, afirmou ter ficado surpreso com as divergências e disse não se lembrar de ter assinado atas ou outros documentos. Ele pediu acesso aos registros, mas não respondeu após recebê-los.
Penha confirmou que trabalhou na organização, mas não respondeu às perguntas sobre as assinaturas nem sobre o período em que ocupou o cargo.
Estrutura da organização
Desde 2014, 12 pessoas passaram por funções como conselheiros fiscais, secretários e tesoureiros. Esses cargos incluíam atribuições relacionadas à movimentação de recursos e direito de voto em assembleias que elegeram e reconduziram Karina à presidência, assegurando a ela o controle da entidade.
Entre os integrantes estavam Regina Ferreira da Gama de Nazaré, mãe de Karina, que foi vice-presidente entre setembro de 2014 e setembro de 2017; um pintor; donos de bares e pequenos comércios de alimentos; sócios de empresas de vidro e esquadrias; e profissionais de marketing. O grupo reunia pessoas de diferentes locais do Brasil, com núcleos no Distrito Federal, em São Paulo e em Uberlândia, em Minas Gerais.
O período em que Dantas figurava como responsável pela tesouraria coincide com os anos analisados pela Controladoria-Geral da União. A CGU concluiu que o instituto desviou recursos do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria em sete estados e no Distrito Federal. Dos R$ 11 milhões recebidos pelo ICB, ao menos R$ 2,4 milhões teriam sido superfaturados, segundo a controladoria.
O instituto e Karina Ferreira da Gama foram procurados, mas não responderam. O caso permanece relacionado às investigações sobre o contrato de Wi-Fi público, os recursos de emendas parlamentares e a documentação que registra a composição da entidade.


