O filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi alvo de denúncias trabalhistas durante as gravações em São Paulo. Um relatório do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED/SP) reúne 15 ocorrências registradas por figurantes e técnicos, incluindo relatos sobre comida estragada, alimentação insuficiente, atrasos de pagamento, contratação informal e revistas consideradas invasivas.
As queixas foram registradas pelo canal Reclame SATED e compiladas em um documento de dezembro. O material reúne manifestações de figurantes brasileiros, artistas com e sem registro profissional (DRT) e técnicos que participaram da produção.
Alimentação e pagamentos
Segundo os relatos, havia diferença entre o tratamento dado ao elenco estrangeiro e aos figurantes brasileiros. A equipe principal teria acesso a café da manhã e almoço em sistema self-service. Aos figurantes, era oferecido um kit com pão com frios, uma maçã, uma paçoca e um suco — alimentação considerada insuficiente para jornadas superiores a 8 horas.
O documento registra ainda o fornecimento de comida estragada em 30 de outubro de 2025. Parte das reclamações foi encaminhada ao sindicato por mensagens de WhatsApp.
Também foram relatados atrasos nos pagamentos, cachês abaixo do padrão de mercado, contratação informal por grupos de WhatsApp e pagamentos em dinheiro sem emissão de nota fiscal. Alguns trabalhadores afirmaram que precisavam pagar R$ 10 pelo transporte até os locais de filmagem, valor que seria cobrado em dinheiro ou descontado do cachê ao final da diária.
Os denunciantes mencionaram episódios recorrentes de assédio moral e condições precárias. Um figurante afirmou ter sofrido agressão física no set, registrado um boletim de ocorrência e informado que faria exame de corpo de delito.
As revistas na entrada das locações também foram questionadas. De acordo com os relatos, seguranças faziam abordagens com toques em partes íntimas e nos seios dos figurantes.
O SATED/SP apontou ainda que a produção teria utilizado equipe técnica estrangeira sem o recolhimento de taxas previstas na Lei nº 6.533/78. Conforme o documento, o sindicato e o SINDICINE não registraram pagamentos pela contratação desses profissionais e não receberam contratos para a obtenção do visto obrigatório das entidades sindicais.
O sindicato afirmou que não fazia acusações diretas contra a produção e que os relatos deveriam ser apurados pelas autoridades competentes, com garantia de contraditório e ampla defesa.
Investimento e contestação
As denúncias vieram à tona no mesmo período em que foi divulgado um suposto investimento de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no filme. Mensagens e áudios trocados entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro indicariam transferências para a produção entre fevereiro e maio de 2025, por meio de um fundo nos Estados Unidos ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.
Em áudio enviado em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro disse que o longa atravessava um momento decisivo e demonstrou preocupação com os atrasos nos pagamentos. Semanas depois, afirmou que a equipe estava “no limite” e convidou Vorcaro para um jantar com Jim Caviezel, protagonista do filme.
Flávio declarou que o financiamento ocorreu com dinheiro privado e negou irregularidades. Depois, afirmou que havia pedido recursos ao banqueiro, mas negou ter “relações espúrias” com ele.
A GOUP Entertainment contestou a atribuição dos recursos. A produtora afirmou que, entre mais de uma dezena de investidores, não havia dinheiro de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas sob seu controle. Também disse repudiar associações entre o filme e fatos externos sem comprovação documental, financeira ou contratual.
Produção
Segundo a Ancine, “Dark Horse” tem orçamento de R$ 28 milhões, dividido entre Brasil, França, Alemanha e Holanda. O longa ainda busca distribuição internacional. Em abril deste ano, produtores negociavam a venda do projeto, enquanto havia especulações sobre uma possível estreia em setembro de 2026.
Dirigido por Cyrus Nowrasteh e escrito com Mark Nowrasteh a partir de argumento de Mario Frias, o filme é apresentado como um thriller político inspirado na campanha presidencial de 2018 e no atentado sofrido por Bolsonaro durante o período eleitoral. O elenco inclui Esai Morales, Lynn Collins, Camille Guaty, intérprete de Michelle Bolsonaro, e Jeffrey Vincent Parise.


