Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Ideias, cultura e reportagem
Mundo

Bienal de São Paulo leva a Berlim reflexão sobre humanidade e fraternidade

Exposição reúne 30 artistas na Casa das Culturas do Mundo e aproxima arte, escuta, crise ecológica e defesa da democracia.

Bienal de São Paulo leva a Berlim reflexão sobre humanidade e fraternidade
Foto: Studio Bowie/HKW/Divulgação

A 36ª Bienal de São Paulo desembarcou em Berlim com uma exposição que propõe pensar a humanidade como prática, verbo e compromisso coletivo. A mostra ocupa a Haus der Kulturen der Welt, a Casa das Culturas do Mundo, e permanece aberta ao público até 6 de dezembro.

A exposição é a primeira itinerância da Bienal na cidade e a 12ª realizada pelo projeto neste ano. Com adaptações para um espaço menor, a apresentação reúne 30 artistas, selecionados entre os 125 participantes da edição exibida em São Paulo. A abertura para convidados ocorreu na sexta-feira, 11, e a visitação pública começou neste fim de semana.

A escolha de Berlim dá à mostra um contexto marcado pela memória de guerras, extremismos e divisões. A cidade recebeu, no mesmo período, uma agenda cultural que incluiu a Semana de Arte de Berlim, com mais de 100 galerias, museus e instituições, além do Festival Internacional de Literatura e da programação do Dia do Patrimônio Aberto.

Também houve uma manifestação com cerca de 100 organizações em defesa da democracia e da justiça social, contra o racismo e contra a construção de uma rodovia que destruirá uma floresta local. O ato ocorreu a uma semana das eleições parlamentares locais, enquanto a AfD, partido de extrema direita, ampliava sua força no país.

Uma exposição pensada para o diálogo

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador-chefe da Bienal e diretor da Casa das Culturas do Mundo, afirmou que as perguntas lançadas pela curadoria e pelos artistas se relacionam com o presente e dizem respeito a todos. Para ele, a exposição também deve oferecer um espaço de respiro diante das dificuldades contemporâneas.

“Estamos todos nos perguntando como podemos ser humanos melhores, como lidar com as precariedades do mundo”, afirmou Bonaventure.

A exposição foi organizada pela marroquina Alya Sebti, uma das cocuradoras da Bienal de São Paulo e curadora da mostra em Berlim. Entre seus critérios esteve a valorização de artistas que fizeram da cidade seu lar, seja por nascimento, seja por terem escolhido viver ali.

O diálogo entre as duas cidades também aparece na arquitetura. Assim como o pavilhão da Bienal, a Casa das Culturas do Mundo foi construída nos anos 1950 e apresenta características modernistas. O prédio projetado por Hugh Stubbins fica no Tiergarten, às margens do Spree. O pavilhão de São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer no início dos anos 1950, está no Parque do Ibirapuera, por onde passa o Córrego do Sapateiro.

Alya Sebti definiu como fios condutores da mostra a coexistência com as plantas, a crise ecológica, a extração e a industrialização em larga escala, além da relação com o solo e da escuta. A redução da seleção original, de 125 artistas para 30, fez com que algumas obras ganhassem maior destaque no espaço alemão.

Entre os trabalhos apresentados estão fotografias de Wolfgang Tillmans, a videoinstalação Watching a Minute for a Minute, de Manaura Clandestina, Como Criar Raízes Aéreas, de Rebeca Carapiá, Tetas que Deram de Mamar ao Mundo, de Lídia Lisboa, e O Jardim - Ode à Coragem, de Theo Eshetu. Também integram a mostra obras de Alberto Pitta, Magdalena Campos-Pons, Julianknxx e Maria Auxiliadora (1935-1974).

A exposição inclui ainda uma nova obra da brasileira Juliana dos Santos e um mural de Tanka Fonta, artista camaronês radicado em Berlim. A Casa das Culturas do Mundo encomendou o trabalho para a fachada do prédio. No interior, há outro mural do artista, comissionado pela instituição em 2023.

Encontros entre cidades e trajetórias

O fotógrafo Akinbode Akinbiyi, nascido em Oxford e morador de Berlim, ocupa a área central da Casa das Culturas do Mundo com um ensaio produzido a partir de uma residência artística na Casa do Povo. Durante cerca de sete semanas, ele fotografou o edifício e o bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

A experiência também o aproximou do coletivo Vilanismo. O reencontro com os jovens ocorreu durante a abertura da exposição, em Berlim, para uma conversa sobre arte e sobre a experiência de se sentir invisível em uma cidade. Akinbiyi, de 80 anos, contou que os integrantes do grupo se tornaram seus irmãos.

A exposição retoma, assim, relações construídas entre artistas, espaços e comunidades. Em vez de apresentar apenas uma versão reduzida da Bienal, a itinerância reorganiza trabalhos e cria novas aproximações a partir da cidade que os recebe.

Humanidade, direitos e meio ambiente

No discurso de abertura, Bonaventure relacionou a proposta da exposição à Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948. Ele citou o artigo 1º, segundo o qual todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, e acrescentou à ideia de fraternidade a de sororidade.

O curador também mencionou a ascensão eleitoral da extrema direita na Alemanha. De acordo com ele, um partido obteve 43,8% dos votos em uma eleição estadual, a maior porcentagem alcançada por um único partido na região desde a reunificação. Outras duas eleições estaduais ocorreriam nas duas semanas seguintes.

A questão ambiental aparece de forma direta no filme Ouro Negro é a Gente (2025), da artista brasileira Aline Baiana, de 41 anos. Radicada em Berlim, ela retrata a ilha de Maré, na Baía de Todos-os-Santos, e uma comunidade quilombola que procura preservar seu modo de vida diante dos efeitos do petróleo e do “progresso”.

A obra parte da relação entre as pessoas e a terra e apresenta formas distintas de estar no mundo. Aline cita o poeta e militante quilombola Nêgo Bispo (1959-2023), para quem “A terra não pertence às pessoas. As pessoas pertencem à terra”.

Próximas cidades

Até o final de 2026, 15 cidades terão recebido exposições produzidas a partir da 36ª Bienal de São Paulo. Ainda estão previstas as aberturas em Belo Horizonte, Vitória e Cidade do México. Em 2026, o projeto passou por Brasília, Goiânia, Santos, Rio de Janeiro e Santiago.

Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, afirmou que as itinerâncias prolongam a experiência para além dos quatro meses de exibição no pavilhão e permitem o encontro com novos públicos e contextos.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Entre na nossa newsletterO melhor da semana, sem spam.