SÃO PAULO — Na EMEF Professor Antonio Prudente, na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, estudantes transformam experiências sobre identidade, território, ancestralidade e relações raciais em letras, arranjos, gravações e apresentações. A iniciativa Arranjos Periféricos: letramento racial, afeto e resistência usa a música como eixo de uma proposta interdisciplinar voltada à educação antirracista e à participação dos jovens nas decisões da vida escolar.
Criado em 2024, o projeto começou com 19 alunos e já envolveu cerca de 50 estudantes. A proposta reúne educação musical, escrita, história, memória, tecnologia e trabalho coletivo. Também está integrada a outras ações da unidade, como o Coletivo Pretos no Topo e o Projeto Da Ponte Pra Cá.
Escuta, identidade e território
Antes dos ensaios e da formação da banda, os professores Elaine Regina Chagas Santos, José Gabriel Diaz Perez Poeta e Helenice Moreira Dias organizaram rodas de conversa. Os encontros serviram para identificar temas presentes na vida dos estudantes e orientar as produções artísticas.
Nas discussões, apareceram questões ligadas à identidade, à ancestralidade, ao território, ao racismo e às experiências vividas dentro e fora da escola. Esses assuntos passaram a definir os caminhos das músicas e dos trabalhos visuais. A metodologia previa que os temas fossem escolhidos a partir das vivências dos participantes, garantindo a presença dos jovens nas decisões sobre as obras.
A escola também incorporou conhecimentos trazidos das famílias, das comunidades e dos territórios dos estudantes. A oralidade, a música, as referências culturais e as histórias de vida foram consideradas pontos de partida para novas aprendizagens.
O repertório construído pelo grupo incluiu obras da literatura negra, como O mundo no black power de Tayó e O black power de Akin, de Kiusam de Oliveira. As leituras abriram discussões sobre representação, pertencimento e ancestralidade.
Na música, os estudantes conheceram trabalhos de Racionais MC’s, Sabotage, RZO, Cássia Eller e Gabriel O Pensador. O rap recebeu atenção por sua relação com a cultura periférica e por transformar experiências coletivas em letras, ritmos e mensagens. A obra Cabeça de Nego, de Sabotage, foi usada para abordar a presença da cultura negra na sociedade brasileira e de palavras de origem iorubá na linguagem cotidiana.
Música como prática interdisciplinar
A criação musical mobilizou conhecimentos de várias áreas. Em Arte, os estudantes experimentaram sons, produziram composições e desenvolveram apreciação crítica. Em História, analisaram contextos sociais e culturais relacionados aos artistas e gêneros estudados. Em língua portuguesa, trabalharam leitura, interpretação, repertório e produção textual durante a elaboração das letras.
A matemática apareceu na organização dos ritmos, na divisão dos tempos, na métrica e na estrutura dos compassos. Assim, conceitos de diferentes componentes curriculares passaram a ser mobilizados em uma experiência prática, ligada à produção de uma obra coletiva.
A etapa visual contou com a participação da professora Helenice Moreira Dias e envolveu murais, painéis, grafites e mensagens sobre identidade negra e valorização cultural. As intervenções levaram a produção dos estudantes para paredes e áreas de circulação, fazendo da escola um espaço de criação e representação de suas histórias.
Depois das rodas de conversa e do estudo das referências, o grupo escolhia coletivamente os temas das letras e dos arranjos. Relatos sobre cotidiano, território, relações raciais, identidade e experiências familiares eram debatidos e reorganizados em uma linguagem artística compartilhada.
A composição envolvia pesquisa, escrita, análise de referências, experimentação de ritmos e adequação das palavras à estrutura musical. A letra assumia uma função comunicativa: os estudantes precisavam selecionar palavras, ordenar ideias e construir mensagens compreensíveis para o grupo.
Da prática à Banda Odara
O aprendizado musical acontecia durante a criação das próprias obras. Não era necessário ter conhecimento prévio. Os participantes podiam experimentar instrumentos e funções diferentes, desenvolvendo suas habilidades ao longo do processo.
Nos encontros, tiveram contato com percussão, cordas, teclado, bateria e instrumentos de sopro. Também estudaram ritmo, melodia, harmonia, compasso, notação musical, arranjos e produção sonora. Ao construir uma música, precisavam decidir como os instrumentos dialogariam, qual seria a função de cada integrante e quais escolhas contribuiriam para o resultado coletivo.
A construção dos arranjos exigia escuta e negociação. Os estudantes testavam combinações, experimentavam ritmos e avaliavam possibilidades sonoras até chegar à versão final. O trabalho coletivo envolvia compreender quando uma participação deveria ganhar destaque, quando deveria acompanhar os demais instrumentos e como cada atuação interferia no conjunto.
A continuidade desse percurso deu origem à Banda Odara. O grupo reúne estudantes do projeto e representa a combinação entre aprendizagens musicais, organização coletiva e responsabilidade compartilhada. Nas apresentações, os jovens ocupam espaços da escola e de outros eventos como autores e intérpretes de uma produção criada por eles.
Gravação, tecnologia e circulação
O projeto envolve todas as etapas de uma produção musical. Depois da definição das letras e dos arranjos, os estudantes participam da preparação dos instrumentos, da escolha dos elementos sonoros e da gravação. O processo inclui captação de instrumentos e vocais, edição, mixagem e masterização.
Também fazem parte da experiência conhecimentos sobre amplificação, passagem de som, equilíbrio entre instrumentos, controle de volume, afinação, equalização e tratamento sonoro. A tecnologia é usada como ferramenta de criação, comunicação e produção cultural, e não apenas como recurso de consumo.
As apresentações públicas são tratadas como parte do aprendizado. A Banda Odara participa de atividades na escola, de eventos da rede municipal, de festivais e de encontros culturais. O grupo esteve no Festival Literário e Artístico Folhas de Baobá e no Festival Estudantil de Música Instrumental e Corais da Cidade de São Paulo (FEMIC). Também conquistou premiações nas edições de 2023 e 2024 do FEMIC e recebeu o segundo lugar no Prêmio Heitor Villa-Lobos 2024.
Outro momento citado no percurso foi a apresentação de Vida Loka, Parte II, dos Racionais MC’s, na Expo Favela. A atividade permitiu que os estudantes compartilhassem uma produção ligada às referências culturais e ao território em que vivem.
Protagonismo e novas formas de expressão
As aprendizagens desenvolvidas abrangem música, arte, técnica e participação social. Os estudantes estudam ritmo, melodia, harmonia, instrumentos, composição e produção sonora, além de acompanharem o caminho entre a criação da letra, a gravação e a circulação da obra.
Na linguagem, praticam leitura, escrita e argumentação. No trabalho coletivo, desenvolvem escuta, responsabilidade, negociação e tomada de decisões em grupo. Ensaios, arranjos e apresentações dependem da contribuição de todos.
Os professores relatam ainda a trajetória de uma estudante negra que chegou à escola depois de vivenciar situações de racismo em outras unidades e enfrentar dificuldades de participação no cotidiano escolar. Com o envolvimento no projeto, ela passou a escrever poesias, participar de Slam, cantar e tocar instrumentos, tornando-se uma das integrantes mais atuantes da iniciativa.
O Arranjos Periféricos articula, assim, currículo e realidade dos estudantes. A educação antirracista aparece na valorização das histórias, dos repertórios culturais e das narrativas produzidas pelos próprios jovens. Ao transformar vivências em música, construir arranjos, participar de gravações e apresentar suas criações, eles ampliam suas possibilidades de expressão e ocupam novos espaços de participação na escola.


