CUBATÃO — Regis Marques Ribeiro deixou a direção da Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão (SP), quase uma década depois de assumir o comando da unidade e menos de um ano após a escola ser eleita a melhor do mundo na categoria Superação de Adversidades do World’s Best School Prizes. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo determinou o afastamento em 12 de agosto de 2026, após um processo administrativo disciplinar instaurado em 2022 para apurar procedimentos relacionados à contratação e à execução de obras.
A decisão encerrou a designação de Regis como diretor, mas não seu vínculo com a rede estadual. Após cumprir uma suspensão de 45 dias, ele começou a trabalhar como diretor da Escola Estadual José da Costa, também em Cubatão, nesta segunda-feira (28). O ex-diretor afirma que ficou sem receber durante o período de afastamento e calcula que sua remuneração mensal será cerca de R$ 3 mil menor na nova função.
A Seduc-SP informou que as irregularidades foram comprovadas no processo e que o servidor teve assegurados o contraditório e a ampla defesa. Segundo a secretaria, um recurso apresentado por Regis foi analisado e indeferido, mantendo a decisão administrativa. A penalidade considerou manifestação da Procuradoria-Geral do Estado e a ausência de antecedentes disciplinares.
A disputa sobre as obras
O processo envolveu procedimentos relacionados à reforma do piso da escola e a uma intervenção para adequar a unidade às exigências do Corpo de Bombeiros. Regis sustenta que os serviços foram concluídos, que não houve desvio de recursos e que as estruturas continuam em uso.
A defesa afirma que o processo ainda não terminou na esfera administrativa. Um recurso apresentado ao secretário estadual da Educação, Renato Feder, em agosto, aguarda análise. Caso a decisão seja mantida, Regis pretende recorrer ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, antes de avaliar uma eventual ação na Justiça.
O ex-diretor associa o processo a conflitos anteriores com a administração estadual. Em 2017, ele e gestores de outras escolas questionaram a Diretoria de Ensino por receberem apenas sardinha e atum para a merenda e participaram de uma mobilização. Em 2022, um relatório do núcleo de obras apontou problemas de limpeza, manutenção e gestão da estrutura física da Parque dos Sonhos. Regis reconhece que perdeu a calma em uma reunião com outros gestores, mas afirma que novas verificações foram feitas sobre prestações de contas já aprovadas.
Uma escola ampliada
Quando Regis assumiu a direção, em 2016, a escola havia perdido mais da metade dos estudantes. Ao longo dos anos seguintes, a unidade ampliou projetos, aproximou-se das famílias e desenvolveu práticas voltadas à escuta, à participação e à não violência.
Hoje, a Parque dos Sonhos tem 1.205 estudantes. Depois do reconhecimento internacional conquistado em 2025, a unidade passou por uma ampliação: em 2026, uniu-se a uma escola vizinha, passou a oferecer também o ensino médio e iniciou a integração de duas comunidades escolares.
Os primeiros meses dessa integração foram marcados, segundo Regis, por brigas, depredações e outros problemas de convivência. Ao longo do ano, os conflitos começaram a diminuir e mais situações passaram a ser resolvidas pelo diálogo. O processo, porém, ainda estava em andamento quando ele deixou a direção.
A escola reúne mais de 40 projetos curriculares e extracurriculares. Há atividades esportivas, artísticas e formativas, como patinação artística, ginástica acrobática, capoeira, karatê, atletismo, voleibol, handebol, teatro, fotografia, robótica, banda marcial, além de produção de jornal e podcast. Parte das iniciativas ocorre no contraturno.
Estudantes da unidade conquistaram premiações estaduais, nacionais e internacionais na patinação artística. A escola venceu o Campeonato Estadual Paulista de Vôlei Masculino, recebeu o Prêmio Amigo das Bandas e obteve a certificação prata do Best School to Work, da T4 Education, voltada à cultura e ao ambiente de trabalho.
Para 2027, estavam previstas novas atividades, entre elas canoagem no Rio Santana, escalada e um coral em inglês. A escola já havia conseguido 30 canoas. Também estava planejada uma parceria com a Great People Mental Health para ações voltadas à saúde mental dos professores. O objetivo era voltar a disputar o World’s Best School Prizes em 2028.
A transição na direção
A Seduc-SP, por meio da Unidade Regional de Ensino de Santos, iniciou entrevistas com candidatos à direção. Enquanto uma nova escolha não é concluída, a escola ficou sob a condução de Rosana dos Santos Santana, profissional que trabalha na unidade desde 2014 e acompanhou boa parte da trajetória como coordenadora e vice-diretora. Ela havia solicitado aposentadoria, mas permaneceu para ajudar a manter os projetos.
Regis afirma que pretendia deixar a direção em alguns anos, preparando alguém da própria equipe e realizando uma transição gradual. A decisão administrativa interrompeu esse planejamento. Mesmo assim, ele procurou convencer profissionais que cogitavam sair da escola a permanecerem na unidade.
As duas filhas do ex-diretor, de 12 e 14 anos, estudam na Parque dos Sonhos, no 6º e no 9º ano. Regis afirma que quer que elas continuem ali e que também permanecerá ligado à escola, inclusive como integrante da Associação de Pais e Mestres, se for necessário. Segundo ele, estudantes continuam perguntando quando ele voltará à direção.
Uma experiência que se espalha
Em janeiro de 2026, a Seduc-SP anunciou a criação da Rede Escola dos Sonhos, inspirada em práticas desenvolvidas na Parque dos Sonhos. A iniciativa prevê levar essa experiência a 100 escolas estaduais de regiões de maior vulnerabilidade.
A proposta é acompanhada pelo Conviva, o Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar, e está organizada em três pilares: formação continuada, acompanhamento territorial e implementação de práticas pedagógicas e de convivência. A intenção é adaptar as práticas às características de cada comunidade escolar, e não reproduzir a unidade de Cubatão como modelo idêntico.
Regis participou das primeiras formações, nas quais apresentou a trajetória da escola e experiências como o Escola Vai à Sua Casa. A condução da rede passou depois ao Conviva, enquanto sua participação se tornou pontual.
O ex-diretor também fundou o Instituto da Não Violência, com a proposta de levar princípios e práticas desenvolvidos na Parque dos Sonhos para outras redes de ensino no Brasil e no exterior. Ele relata interesse de educadores de Guiné-Bissau e de Barcelona, na Espanha, além de uma conversa com um diretor do Uruguai. Materiais começaram a ser traduzidos para o espanhol, e a meta anunciada é chegar a 10 mil escolas até 2030.
A saída de Regis ocorre enquanto a escola busca preservar projetos, relações e formas de convivência construídas ao longo dos anos. A Seduc-SP afirma que a cessação da designação não representa o desligamento do servidor da rede estadual. Conforme a secretaria, após o cumprimento da suspensão, ele poderá permanecer em outra unidade, de acordo com seu vínculo funcional e as normas vigentes. A manifestação foi enviada em 8 de setembro de 2026.


