Uberlândia, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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‘Virtuosas’ transforma a promessa de perfeição feminina em terror

Dirigido por Cíntia Domit Bittar, o filme acompanha mulheres submetidas a um retiro de fé, controle e ambições ocultas.

‘Virtuosas’ transforma a promessa de perfeição feminina em terror

Em uma mansão isolada, um grupo de mulheres se reúne para alcançar a chamada melhor versão de si mesmas. O retiro oferece regras, ensinamentos e a orientação de uma mentora carismática, mas a promessa de aperfeiçoamento logo revela uma estrutura de controle. Dirigido por Cíntia Domit Bittar, Virtuosas estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 24, e transforma a busca pela mulher ideal em uma experiência de humor ácido e terror.

A feminilidade defendida no retiro se apoia em uma interpretação de Provérbios 31, associada à submissão, à dedicação à família e a um comportamento considerado exemplar. O ponto de partida permite que o filme explore um universo de mulheres ultraconservadoras sem se limitar à sátira. À medida que as regras se tornam mais rígidas e as relações mais ambíguas, o horror passa a surgir menos de criaturas sobrenaturais do que das escolhas e dos desejos das próprias personagens.

Fé, submissão e disputa por poder

A mansão funciona como um espaço separado do mundo, onde Virgínia Heinzel, interpretada por Bruna Linzmeyer, exerce influência sobre as participantes. A coach fala de família, fé e submissão com segurança, como alguém capaz de oferecer exatamente as respostas que aquele público procura. Por trás do discurso, porém, aparecem jogos de poder e estratégias de manipulação.

Bruna não interpreta Virgínia como alguém simplesmente convencida pela doutrina que apresenta. “Eu acho que ela não acredita em Deus, não acredita na religião, não acredita na submissão”, afirma a atriz. Para ela, a personagem recorre a esses elementos para controlar as pessoas e a fé delas.

Essa leitura evita que Virgínia se torne uma caricatura. Ela é uma vilã consciente dos recursos que mobiliza, mas também uma presença dotada de profundidade. Ao redor dela, as demais mulheres chegam ao retiro movidas por razões diferentes: buscam aceitação, reconhecimento, transformação ou controle.

Germina, interpretada por Maria Galant, entra naquele universo interessada em encontrar sua melhor versão. Enquanto aprende as regras, começa a perceber como pode usá-las a seu favor. O movimento cria uma proximidade incômoda entre ela e Virgínia. As duas entendem que o contexto pode ser convertido em instrumento de poder, ainda que ocupem posições diferentes dentro da disputa.

O riso como porta para o horror

O terror avança por meio de uma mudança gradual. A situação se torna estranha sem que seja possível indicar um momento preciso em que tudo deixou de parecer aceitável. Juliana Lourenção interpreta a esposa de um deputado famoso e acompanha esse deslocamento sem reduzir a personagem a um tipo reconhecível de imediato.

A diretora associa essa experiência à dinâmica das redes sociais: o absurdo provoca riso, circula como motivo de piada e, algum tempo depois, revela consequências que já não parecem engraçadas. O filme se apoia justamente nessa reação instável, em que rir também pode significar subestimar o perigo.

Sarah Motta, que interpreta outra participante do retiro, percebeu essa força em uma cena na qual Virgínia discursa sobre submissão. O discurso parece absurdo, mas se torna inquietante por utilizar palavras e argumentos que podem soar familiares. Bárbara, sua personagem, começa a jornada acreditando que será transformada em uma mulher melhor. Aos poucos, perde o entusiasmo e se decepciona com o caminho que escolheu.

Para Brisa Marques, o filme questiona a existência de uma definição única de feminilidade. A personagem que interpreta está entre as mais complexas da história, em uma narrativa que trata o gênero como imposição social e forma de controle. A ideia de mulher perfeita, nesse contexto, deixa de ser um modelo neutro e passa a funcionar como mecanismo para estabelecer limites e expectativas.

Personagens além da caricatura

A preparação do elenco aproximou as atrizes de mulheres que seguem esse tipo de visão de mundo. Sarah Motta conta que se surpreendeu ao descobrir a diversidade presente nesses grupos, inclusive a presença de mulheres de sua idade que fazem faculdade de arte. Juliana Lourenção também afirma ter revisto seu próprio julgamento ao pesquisar pessoas que poderiam, à primeira vista, ser reduzidas a caricaturas.

Essa investigação ajuda a explicar por que Virtuosas não se limita a ridicularizar o modelo de feminilidade apresentado no retiro. O filme procura observar por que ele pode ser sedutor e o que mulheres diferentes encontram nessa promessa de transformação. A adesão à doutrina não aparece como resultado de uma única motivação, mas como parte de desejos, vulnerabilidades e ambições variadas.

Cíntia Domit Bittar define suas personagens como mulheres “monstruosamente humanas”. Elas são contraditórias, manipuláveis, ambiciosas e vulneráveis, mas também podem se tornar assustadoras. Ao recusarem a posição de símbolos de uma discussão, ganham uma complexidade que sustenta o terror. O medo, assim, não depende de demônios ou de ameaças externas: nasce da capacidade humana de acreditar, manipular e fazer mais do que se imaginava capaz.

Texto produzido pela Redação Olhar Plural com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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