O sertanejo ampliou sua presença nas rádios brasileiras e se tornou o gênero predominante entre as músicas mais tocadas no país. Dados da Crowley, empresa que mede a audiência das emissoras, mostram que 93% das canções mais executadas atualmente pertencem ao estilo. Em 2000, essa participação era de 28%.
A expansão alterou o equilíbrio entre gêneros que, em outros períodos, disputavam a preferência do público. O pop rock, que há 25 anos concorria com sertanejo, samba, pagode e axé music, deixou de aparecer entre as dez músicas mais tocadas nas rádios populares há doze anos. O gênero ainda permanece no mercado de shows, mas com predominância de bandas clássicas e artistas veteranos, em um movimento associado à nostalgia.
O domínio nas rádios
Entre 2011 e 2023, Luan Santana apareceu catorze vezes entre as dez músicas mais tocadas nas emissoras. Gusttavo Lima, por outro lado, acumulou maior volume de execuções: suas onze aparições no grupo das dez primeiras somaram 831 mil reproduções. Bruno & Marrone também figuram entre os artistas mais populares do período.
A força do sertanejo não se resume à quantidade de espaço ocupada nas rádios. O gênero também se consolidou no mercado de shows, apoiado por investimentos, estratégias empresariais e apresentações voltadas ao entretenimento. A mudança ocorreu sem que a comparação representasse, necessariamente, uma avaliação sobre a qualidade musical dos estilos que perderam espaço.
Dentro do próprio sertanejo, a chamada sofrência aparece como a vertente predominante, substituindo a centralidade das canções de balada de outros períodos. Entre os exemplos estão Não Mexe nas Minhas Gavetas, de Danilo & Davi, sobre ciúme em uma relação sem compromisso definido; uma música de Clayton & Romário sobre a recusa da parceira em assumir o namoro; e Quem Sente Saudade Sou Eu, de Maiara & Maraísa, construída em torno da tristeza, da bebida e da tentativa de lidar com a ausência amorosa.
Música e mudanças no país
A trajetória dos gêneros populares também acompanha diferentes momentos da vida brasileira. As canções de protesto dos anos 1960 e 1970 chamaram atenção para a ditadura. Na década de 1980, o rock nacional e as músicas românticas de Michael Sullivan & Paulo Massadas refletiram a expectativa de um novo país.
Em 1992, pouco depois do impeachment de Fernando Collor de Mello, a ascensão da axé music, então representada por Daniela Mercury, foi associada à expectativa de tempos melhores. O período posterior incluiu o Plano Real, o crescimento do pop dançante de Skank e Jota Quest e uma nova onda do axé. Mais tarde, o hip hop nacional produziu letras de combate sobre os efeitos da pandemia nas periferias.
A leitura dos dados da Crowley relaciona as letras sertanejas às condições econômicas. Em momentos de maior prosperidade, ganharam espaço músicas sobre festas, encontros casuais e ascensão social, como Ai Se Eu te Pego e Fugidinha, de Michel Teló, e Camaro Amarelo, sucesso de Munhoz & Mariano. A celebração também esteve presente no funk ostentação, com músicas de MC Guimê como Plaquê de 100 e Tá Patrão.
A sofrência ganhou força a partir de 2015, quando o Produto Interno Bruto caiu 3,5% e o desemprego atingiu o pior resultado em onze anos. O sertanejo passou a enfatizar perdas amorosas e o consolo encontrado em bares. No mesmo período, o feminejo se consolidou, tendo Marília Mendonça como principal símbolo. Amante não tem Lar, Infiel e Todo Mundo Vai Sofrer, interpretadas por ela, além de Cadeira de Aço e Estado Decadente, de Zé Neto & Cristiano, expressaram esse ambiente de frustração e ruptura.
Entre a festa e a desilusão
A recuperação posterior à pandemia produziu, por algum tempo, uma nova onda de sertanejo festivo. Nesse repertório, o álcool aparece mais associado à celebração do que à tentativa de amenizar a dor. O movimento inclui o Agro Play, vertente liderada por Ana Castela.
A instabilidade política, contudo, é apresentada como um possível terreno para o retorno das canções de sofrimento. A tendência apontada para o mercado é de continuidade da sofrência, ao lado do arrocha, descrito como uma seresta dolorida originária da Bahia. O próximo movimento da música brasileira, nesse cenário, permanece aberto — mas a predominância do sertanejo já não é uma previsão: é o retrato do que as rádios executam hoje.


