PETROLINA — Depois de um show acústico no Sesc Petrolina, Luedji Luna falou sobre a busca por intimidade no palco, a passagem do tempo, os encontros que transformam uma vida e os caminhos que pretende seguir às vésperas de completar uma década de carreira. A apresentação reuniu dois violonistas e quatro backing vocals, em uma formação menor que a banda habitual da cantora, composta por mais de dez músicos.
A redução da estrutura, segundo Luedji, recupera o contato direto com a plateia e cria espaço para a conversa e a poesia das canções. O formato nasceu também de uma necessidade artística: depois de dois discos voltados à exposição de sua intimidade, a cantora sentiu que ainda havia aspectos de sua experiência a revelar.
Um palco mais próximo
O acústico revisita canções dos dois trabalhos mais recentes e incorpora novos arranjos e músicas relacionadas ao momento atual da artista. Sem os sopros, as muitas vozes de apoio e os figurinos de seu espetáculo maior, a apresentação permite que o público se concentre mais nos textos.
A passagem por Petrolina foi a primeira de Luedji pela cidade. A região, porém, já fazia parte de seu imaginário por meio da música e de relações com Zé Manoel e Josyara, de Juazeiro. Durante a visita, ela atravessou o Rio São Francisco, conheceu a Ilha do Massangano e provou o peixe local.
No repertório, canções como Rota e Encruzilhada aparecem ligadas a diferentes formas de deslocamento. Para Luedji, os encontros, mesmo breves, podem alterar uma trajetória e ter seu sentido compreendido apenas mais tarde. Já a encruzilhada, antes associada à dúvida, passou a ser vista por ela como um espaço de transformação, no qual qualquer decisão rompe a inércia.
O bis não fazia parte do roteiro. A cantora, no entanto, decidiu cantar Banho de Folhas, seu maior hit, por ser a primeira apresentação em Petrolina. O encerramento planejado incluía uma citação de Milton Nascimento.
Reconhecimento e próximos passos
Aos 39 anos, Luedji descreve a fase atual como mais tranquila. Ela afirma que, no passado, concentrou muita energia e dinheiro na busca por prêmios, validação e reconhecimento. Hoje, recebe as conquistas como consequência do trabalho realizado.
Entre essas conquistas estão o Grammy Latino em 2025, a eleição como Artista do Ano pela APCA e dois troféus no Prêmio da Música Brasileira neste ano. Para celebrar os 10 anos de Um Corpo no Mundo, a cantora pretende fazer uma turnê nacional e internacional em 2027. O álbum de estreia, segundo ela, foi o trabalho que a tornou cantora e “abriu um grande portal” em sua vida. Ainda não há datas fechadas.
Luedji também segue com a banda completa em apresentações nas regiões Norte e Nordeste por meio do Natura Musical. O projeto busca levar a estrutura maior dos shows a locais que, por custos e limitações físicas, não receberiam a formação habitual. Depois de Fortaleza e São Luís, estão previstos o Pará e Recife.
O formato acústico terá circulação própria por teatros e espaços menores. A proposta é retomar oportunidades de apresentação que haviam se tornado mais difíceis com o crescimento da estrutura da carreira.
Identidade, complexidade e tempo
A obra de Luedji parte de sua experiência como mulher negra, nascida em Salvador, e mantém uma relação direta com questões de ancestralidade e espiritualidade. Embora o público tenha se tornado mais amplo, ela afirma que suas canções continuam falando de maneira particular com uma comunidade, sobretudo com mulheres negras.
A cantora também defende que artistas possam expor contradições, erros e sentimentos sem serem reduzidos a julgamentos definitivos. Para ela, a cultura do cancelamento e o tribunal da internet exigem um autocontrole que pode tornar o artista engessado e receoso de assumir sua complexidade.
Prestes a completar 40 anos, Luedji diz que a idade não determina uma única maneira de existir. Em diferentes momentos, sente-se com 5, 15, 27 ou 100 anos. A reflexão sobre o tempo ganhou força após a perda precoce de uma amiga. Sem conclusões fechadas, ela pensa sobre como cada pessoa escolhe se colocar no mundo diante da impossibilidade de saber quando a própria vida terminará.
Entre as escutas atuais, cita o último disco de Bebé Salvego, o novo trabalho de Odeal, artista de Londres, e as faixas do novo álbum de Zudizilla. Djavan, afirma, permanece entre suas referências constantes.


