As transmissões ao vivo no TikTok passaram a ocupar um espaço regular na rotina de músicos brasileiros. A atividade combina preparação técnica, escolha de repertório, conversa com o público e uma fonte de renda que, para alguns artistas, já sustenta projetos autorais e apresentações fora da plataforma.
No primeiro semestre de 2026, mais de 22 mil criadores de música fizeram Lives no Brasil, conforme dados fornecidos pelo TikTok. A média diária superou 6 mil músicos. No mundo, mais de 240 milhões de criadores transmitiram ao vivo em 2025, e 150 milhões receberam algum tipo de recompensa por esse trabalho, ainda segundo a empresa.
Da transmissão ocasional ao trabalho
A cantora Julia, de 21 anos, começou a fazer Lives depois de receber uma proposta para transformar as transmissões em atividade profissional. Criada em Uiraúna, no interior da Paraíba, ela já publicava vídeos na internet, mas não imaginava que cantar diante da câmera pudesse gerar renda.
O início foi marcado por valores baixos. No primeiro mês, Julia estima ter recebido cerca de R$ 100. Em alguns dias, depois de passar horas ao vivo, ganhou 25 centavos, R$ 1 ou R$ 2. A insistência fez a remuneração chegar a aproximadamente R$ 2 mil mensais, quantia que passou a ajudar no pagamento do aluguel e das contas.
“É muito difícil você ficar duas horas, três horas, e ganhar tão pouco, e mesmo assim voltar no dia seguinte”, afirma Julia.
A experiência mostra que a monetização depende de uma presença constante e de uma audiência que retorna. Abrir a câmera e cantar não basta: os artistas precisam manter o interesse de quem acompanha, responder aos pedidos e organizar uma apresentação capaz de competir pela atenção em uma tela na qual o público pode entrar e sair a qualquer momento.
Karla Hill começou com um celular e um violão. Conforme as transmissões passaram a gerar retorno, investiu em cenário, iluminação e equipamentos, ampliou o repertório e alterou sua forma de se apresentar. “Antes eu fazia Live sentada, hoje eu já faço um live show”, diz.
Galli, que já tinha carreira musical antes de chegar ao TikTok, também incorporou as transmissões ao centro de sua rotina. O cantor mantém acompanhamento com fonoaudiólogo e considera a frequência essencial para permanecer visível para a audiência. A mudança, segundo ele, foi principalmente estrutural: sem deslocamentos e sem a montagem de equipamentos para cada evento, o trabalho se tornou mais simples de organizar.
Uma comunidade que participa da carreira
A Live estabelece uma relação diferente daquela criada por um vídeo publicado. Durante a transmissão, os músicos identificam quem pede determinada canção, respondem perguntas e reconhecem pessoas que aparecem com frequência. Essa convivência influencia decisões sobre repertório, lançamentos, álbuns e apresentações.
Karla apresenta projetos em andamento à comunidade e usa as reações para avaliar como uma música ou uma proposta visual está sendo recebida. As opiniões não definem sozinhas suas escolhas, mas ajudam a orientar o processo. Parte dos espectadores também passou a integrar seu fã-clube e a se aproximar de seus projetos profissionais.
Em uma apresentação presencial em São Paulo, a cantora encontrou pessoas que haviam viajado para vê-la e ouviu o público cantar suas músicas autorais. O encontro também mostrou que a audiência digital pode atravessar a tela e chegar a uma casa de shows, embora essa conversão não seja automática.
Julia destaca que o contato direto é uma das diferenças entre publicar um vídeo e permanecer ao vivo: “Você pode conhecer as pessoas naquele exato momento”. A artista consegue saber de onde vêm os espectadores, o que gostam e quais músicas preferem.
Renda investida em novas etapas
O dinheiro das transmissões não fica restrito ao pagamento das despesas pessoais. Karla direciona parte dos recursos para músicas autorais, produção, divulgação, identidade visual, músicos, ensaios, equipamentos e novos shows. Para ela, a renda permite dedicar mais tempo à atividade artística.
Galli chegou ao TikTok em um período financeiro difícil e cogitou abandonar a produção de conteúdo. Também trocou o sertanejo por covers internacionais e músicas flashback, repertório que já apreciava e que, em sua avaliação, poderia alcançar pessoas fora do Brasil.
Ele estabeleceu 31 de dezembro de 2023 como prazo para decidir se continuaria. Uma transmissão realizada em 30 de dezembro mudou o rumo da escolha, e Galli passou a concentrar seu trabalho na plataforma.
Hoje, para Karla, Galli e Julia, as Lives são a principal fonte de renda e ajudam a manter novos projetos musicais. No caso de Julia, o dinheiro obtido no TikTok financia a preparação de uma carreira autoral, com produção musical, clipe e equipe de marketing. Uma gravadora entrou em contato com a cantora depois de conhecê-la pelas transmissões.
Do ambiente virtual para os palcos
O TikTok também tenta aproximar as Lives de etapas tradicionais da indústria musical. O Music On Stage, competição global destinada a artistas emergentes que fazem transmissões, gerou 8,2 bilhões de impressões e mais de 230 mil publicações com a hashtag #MusicOnStage. As finais globais reuniram mais de 1,4 milhão de espectadores, e os vencedores tiveram músicas autorais produzidas e lançadas profissionalmente.
Os músicos não veem a presença nos palcos como substituta das transmissões. Karla pretende continuar ao vivo mesmo com novos shows. Galli considera a plataforma uma preparação para outras fases da carreira. Julia organiza os primeiros lançamentos sem abandonar o formato.
A trajetória dos três indica um movimento de mão dupla: a Live oferece público e renda, enquanto os recursos e a visibilidade podem ser direcionados para músicas autorais e apresentações presenciais. A tela, nesse percurso, não encerra a carreira musical; funciona como ponto de partida para outras formas de trabalho artístico.


