CURITIBA — A palavra “Coragem”, desenhada em um mural diante do Passeio Público, tornou-se uma das obras de arte urbana mais conhecidas da cidade. Criada por Cristina Pagnoncelli em 2021, a obra também resume a trajetória da designer gráfica, artista visual, muralista e arte-educadora nascida em Pato Branco, no sudoeste do Paraná.
Especialista em lettering, a arte de desenhar letras à mão, Cristina transforma palavras em imagens e combina poesia visual com crítica social. Seus trabalhos abordam o empoderamento feminino, questionam normas sociais e procuram ampliar a visibilidade de artistas mulheres.
Da formação ao muralismo
Cristina vive em Curitiba desde os 18 anos. Na adolescência, passou por Cascavel e, ao chegar à capital paranaense, escolheu o design gráfico depois de inicialmente considerar a Odontologia. O interesse pelas artes, porém, vinha da infância. Ela desenhava, fazia colagens e estudava pintura desde os nove anos.
Entre 2009 e 2010, morou na Europa por nove meses e cursou uma pós-graduação em Ilustração Criativa e Técnicas de Comunicação Visual. A experiência, descrita por ela como a “gestação de uma nova Cris”, reaproximou-a dos processos artísticos manuais. Depois, entre 2012 e 2013, passou seis meses em Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde estudou visual branding e ilustração e entrou em contato com a arte de rua do Brooklyn.
De volta a Curitiba, começou a produzir chalk lettering em paredes de cafés. Em seguida, aprofundou os estudos em caligrafia e tipografia e cofundou o coletivo Criatipos com Silvia Costa, Eduilson Coan e Jackson Alves. O grupo participou de pinturas ao vivo no Lollapalooza e desenvolveu workshops e palestras no Brasil, na Argentina, na Espanha e na Itália.
Em 2014, Cristina e Silvia Costa pintaram em Nova Iorque o mural “Perhapiness”, homenagem a Paulo Leminski. Dois anos depois, a artista realizou seu primeiro mural de grandes dimensões em Curitiba, na fachada do Moinho Rebouças.
Arte como ação coletiva
Há 10 anos, Cristina criou o projeto social “Lute Todos os Dias”, um calendário anual voltado à divulgação da produção de mulheres e à arrecadação de recursos para causas sociais. Depois de uma década em formato voluntário, a iniciativa passa por uma reestruturação, com a intenção de remunerar as artistas e profissionalizar a gestão por meio da busca de editais de fomento.
O mural “Coragem” nasceu de uma frustração. A proposta inicial era homenagear Alice Ruiz com um poema que trazia a palavra “úmida”, mas os proprietários do prédio recusaram a obra por causa do teor sexual. Cristina decidiu ressignificar o episódio e usar a lateral do edifício para criar outro trabalho.
“Eu preciso ter coragem pra continuar, pra fazer minha arte”, afirmou a artista ao lembrar o processo. O mural ocupou seis andares e converteu uma experiência de veto em uma obra associada à própria trajetória de autodescoberta, superação e persistência criativa.


