Wagner de Assis transformou a trajetória das irmãs Fox em uma produção falada em inglês. The Fox Sisters revisita a história das mulheres associadas ao surgimento do espiritualismo moderno nos Estados Unidos e procura ir além da versão que as apresenta apenas como farsantes.
O interesse do diretor pelo tema começou quando ele encontrou materiais mais aprofundados sobre as irmãs. A pesquisa, segundo Wagner, revelou uma distância significativa entre a narrativa popular e a complexidade da trajetória familiar. Ele passou a investigar os acontecimentos sem aplicar automaticamente aos personagens históricos os critérios de alguém vivendo no século XXI.
“Eu limpei o meu olhar, como alguém que observa o passado a partir do presente, protegido pelo presente, e fui pesquisar o que realmente aconteceu com elas naquela época”, afirmou.
Uma história de mulheres e espiritualismo
Com o auxílio da irmã mais velha, Leah, as jovens iniciaram sessões mediúnicas para investigar realidades de outras dimensões. O movimento se expandiu, e as sessões passaram a oferecer consolo e apoio a famílias que buscavam notícias de parentes mortos.
As irmãs ficaram conhecidas principalmente pelo fenômeno das mesas girantes, que se espalhou pelos Estados Unidos e depois chegou à Europa. Na segunda metade do século XIX, eram consideradas entre as pessoas mais famosas do país.
Para Wagner, o filme não se limita aos fenômenos sobrenaturais. A narrativa acompanha a ascensão e a queda de uma família e as dificuldades enfrentadas por mulheres muito jovens em uma sociedade machista e patriarcal. A investigação também levou o cineasta a tratar o projeto como uma tentativa de reposicionar historicamente as irmãs, cuja trajetória teria sido reduzida por versões parciais e acusatórias.
Baseado em fatos e em livros sobre o movimento histórico das irmãs, o longa também toma como referência o livro O elo perdido no espiritualismo moderno, de Leah Fox, lançado no Brasil. O elenco é formado pelas norte-americanas Jamie Hughes, no papel de Leah, Sionne Elise, como Maggie, e Marie Mchugh, que interpreta Kate.
A produção buscou reconstruir o período em interiores de casarões antigos do Rio de Janeiro e em ruas, fazendas e casarios nos Estados Unidos. A narrativa percorre três momentos da história: 1858, 1868 e 1888, com a intenção de recriar a região rural do século XIX.
O desafio de filmar em inglês
Depois de dirigir obras como Nosso Lar, Kardec e Ninguém é de Ninguém, Wagner assumiu uma história essencialmente norte-americana. Embora fale inglês e tenha estudado nos Estados Unidos, ele distingue o domínio do idioma da experiência cultural que sustenta uma língua.
Por isso, decidiu trabalhar em conjunto com um elenco e uma equipe capazes de contribuir para a autenticidade da produção. Para o diretor, contar essa história em inglês era importante para que ela pudesse alcançar o país onde os acontecimentos se desenvolveram, além de outros públicos, incluindo o brasileiro.
Wagner também considera que os brasileiros conhecem a história das irmãs Fox mais do que os próprios norte-americanos. A recepção do filme, por isso, tornou-se uma fonte de curiosidade para o cineasta.
A neve durante as filmagens
A equipe precisava de neve para algumas cenas externas, mas as condições previstas não eram favoráveis. Segundo Wagner, não nevava naquela região do nordeste dos Estados Unidos havia anos nas condições necessárias para a produção. A equipe brincou que poderia pedir uma intervenção aos espíritos.
A previsão mudou repentinamente quando o grupo chegou ao local. Durante a noite, caíram cerca de 20 centímetros de neve, o que permitiu a gravação de parte das cenas externas.
O diretor reconhece que o episódio foi um evento meteorológico passageiro, mas admite uma leitura mais bem-humorada: “Se a gente também quiser enxergar aquilo como uma ajudinha dos espíritos, por que não?”
A espiritualidade, para Wagner, não está restrita a filmes destinados a um público religioso. Ele afirma que seus projetos procuram observar conflitos humanos por uma perspectiva espiritual, como em Ninguém é de Ninguém, associado a temas como obsessão, possessividade e ciúme.
Seu entendimento é que a busca espiritual pode assumir formas distintas, sem depender de uma religião específica. As histórias que escolhe contar, diz, partem da ideia de que continuar buscando pode transformar a pessoa e a maneira como ela se relaciona com o mundo.



