Jessie Ware apresenta em ‘Superbloom’ uma jornada musical mais íntima e carnal, sem abandonar a pulsação dançante que marcou seus trabalhos recentes. Com treze faixas inéditas, o álbum reúne disco, dance, R&B e sintetizadores associados aos anos 1970 em uma construção teatral, sensual e amadurecida — possivelmente o capítulo final de uma trilogia iniciada com ‘What’s Your Pleasure’ e seguida por ‘That! Feels Good!’.
A cantora e compositora britânica estreou oficialmente em 2012 com ‘Devotion’, disco que já indicava seu interesse pelo art pop e pelo R&B alternativo. Em 2020, alcançou um novo momento de destaque com ‘What’s Your Pleasure’, mergulho elegante no nu-disco e no hi-NRG. Três anos depois, ‘That! Feels Good!’ ampliou essa direção ao aproximar referências associadas a Madonna e Kylie Minogue de uma identidade própria.
Um jardim de metáforas e sintetizadores
A promoção de ‘Superbloom’ começou em janeiro de 2026 com “I Could Get Used to This”. A faixa combina R&B e funk e recupera o uso de cordas recorrente na obra de Ware. Nas semanas seguintes, vieram “Automatic”, próxima da atmosfera de ‘What’s Your Pleasure’; “Ride”, que transforma o trabalho de Ennio Morricone em um western musical; e “Sauna”, apresentada como uma das melhores faixas da carreira da cantora.
O lançamento oficial amplia esse percurso por meio de metáforas ligadas a jardins e ao amadurecimento. “The Garden Prelude”, uma introdução de quase cinquenta segundos, conduz à faixa-título, sustentada por piano, baixo e vocais cristalinos. A abertura estabelece o tom de um disco que procura organizar diferentes facetas da artista sem abrir mão do impulso instrumental.
Ware também explora o camp e imagina um musical próprio, mas sem recorrer ao exagero performático. Em “Mr Valentine”, sintetizadores, baixo, guitarra, bateria e pandeiros se encontram em uma faixa que evoca “Beautiful People”. Já “Don’t You Know Who I Am?” se destaca como uma declaração amorosa teatral, com homenagens a Diana Ross e Gloria Gaynor.
Entre a celebração e o desvio
O principal ponto de descompasso está em “16 Summers”, balada destinada ao filho. A canção se apoia em uma estrutura melodramática e aborda a passagem do tempo com uma narrativa saudosista, mas não estabelece a mesma relação com as demais faixas. Sua posição também causa estranhamento por anteceder “No Consequences”, de infusão soul-dance, e “Mon Amour”, construída no nu-disco.
Ainda assim, ‘Superbloom’ funciona como encerramento coerente para o ciclo formado por ‘What’s Your Pleasure’ e ‘That! Feels Good!’. O álbum não alcança o mesmo patamar dos trabalhos anteriores, mas preserva o interesse pela maneira despojada, sensual e amadurecida como Jessie Ware desenvolve suas ideias. No centro dessa construção estão os vocais da cantora, que recebem destaque absoluto ao longo do disco.


