Um vídeo em que Paulo Guedes defende a liberdade individual para participar de jogos de azar voltou a circular nas redes sociais depois de Luiz Inácio Lula da Silva assinar uma medida provisória que proíbe apostas de quota fixa e jogos online no Brasil.
A gravação foi feita durante uma reunião ministerial de 22 de abril de 2020, no governo de Jair Bolsonaro. Na ocasião, Guedes discutia a possibilidade de liberar cassinos físicos como forma de atrair turistas. A proposta recebeu oposição de Damares Alves, então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.
Guedes sustentou que adultos deveriam decidir se queriam participar de jogos e gastar o próprio dinheiro. Em resposta a Damares, afirmou: “Deixa cada um se foder, ô Damares”. O debate registrado naquele momento estava ligado sobretudo à legalização de cassinos físicos, e não especificamente ao mercado atual de apostas esportivas e cassinos online.
Medida provisória e reação política
Lula assinou, em 25 de setembro, a Medida Provisória nº 1.394. O texto proíbe apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online, e alcança empresas estrangeiras que direcionem suas operações ao público brasileiro.
A medida prevê um período de transição para o encerramento das plataformas e a devolução dos valores pertencentes aos usuários. Também estabelece mecanismos para impedir operações financeiras ligadas às empresas de apostas, além de regras para a retirada ou o bloqueio de sites e aplicativos.
Por ter força de medida provisória, a decisão produz efeitos imediatos, mas depende do Congresso Nacional para continuar em vigor.
A iniciativa entrou na disputa presidencial. Flávio Bolsonaro criticou a decisão e classificou-a como “hipócrita, eleitoreira, oportunista”. Em transmissão ao lado de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, o senador concentrou as críticas nos cassinos online, como o chamado Jogo do Tigrinho.
Flávio afirmou que essas plataformas contribuem para o endividamento dos usuários e disse que pretende combatê-las com ferramentas tecnológicas. A circulação das declarações de Guedes acrescentou ao debate a posição defendida pelo ex-ministro da Economia durante o governo Bolsonaro.
Repercussão nas redes e apoio à proibição
A proibição das bets gerou 1,33 milhão de menções nas primeiras 24 horas após a assinatura da medida, conforme levantamento do Instituto Democracia em Xeque. Entre 25 e 28 de setembro, nas primeiras 63 horas de monitoramento, foram registrados 2,5 milhões de posts e 40 milhões de interações.
Entre as publicações cujo posicionamento foi identificado, 57% eram contrárias à decisão e 43%, favoráveis. Quando considerado o engajamento, o resultado se inverteu: conteúdos favoráveis concentraram 52% das interações, contra 48% dos conteúdos contrários.
Os defensores da medida destacaram endividamento, dependência e perda de renda das famílias. Os críticos levantaram questões sobre o momento eleitoral, a regulação do setor e os efeitos sobre o futebol.
Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 23 de setembro indicou apoio majoritário à proibição. Entre os entrevistados, 75% disseram que as apostas online deveriam ser proibidas no Brasil. Outros 17% discordaram, enquanto 8% não concordaram nem discordaram.
O levantamento ouviu 5.015 adultos entre 17 e 22 de setembro, com margem de erro de um ponto percentual, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-04739/2026.
Perdas financeiras atribuídas às apostas
Dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal apontam perdas líquidas estimadas de R$ 62,5 bilhões para as famílias brasileiras com apostas online em 2025. O valor corresponde a aproximadamente 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta.
No período entre outubro de 2024 e março de 2026, as plataformas de apostas movimentaram quase R$ 351 bilhões por meio de transferências via Pix, segundo os dados divulgados pelo Comsefaz.
Esses números passaram a integrar a discussão sobre os efeitos econômicos e sociais das apostas. Enquanto defensores da proibição citam o endividamento e a perda de renda, críticos questionam a extinção de um mercado que havia passado por um processo recente de regulamentação no país.


