Exames de sangue capazes de identificar biomarcadores associados à doença de Alzheimer já são oferecidos no Brasil, mas apenas na rede particular. Os valores variam de R$ 1.800 a R$ 5.000, conforme a metodologia e o laboratório. Os testes não estão disponíveis no SUS e não são cobertos pelos planos de saúde.
A indicação ocorre depois de uma avaliação médica, para pessoas com sinais de comprometimento cognitivo ou suspeita da doença. O exame não deve ser usado como rastreamento em indivíduos sem sintomas. Seu resultado pode complementar a avaliação clínica e ajudar a determinar se as alterações cognitivas têm relação com o Alzheimer.
O que os exames identificam
A Anvisa informa que há produtos regularizados para a detecção de diferentes biomarcadores associados ao Alzheimer. A lista da agência reúne 30 testes, que podem analisar amostras de sangue ou plasma e, em outros casos, o líquor, líquido que envolve o cérebro.
Entre os principais biomarcadores estão a beta-amiloide e formas anormais da proteína tau, como a p-tau217. Essas alterações se relacionam ao acúmulo de placas de beta-amiloide e de proteínas tau no cérebro.
O neurologista Fábio Henrique Porto, presidente da Abraz em São Paulo, estima que os exames de sangue custem geralmente entre R$ 2.000 e R$ 5.000. O valor depende do método empregado e do laboratório responsável pela análise.
Um dos testes disponíveis é o Precivity AD2, oferecido pelo Fleury, que combina marcadores de beta-amiloide e proteína tau. Segundo o laboratório, a coleta é realizada no Brasil e a análise, nos Estados Unidos. O exame custa cerca de R$ 4.400.
Também existem testes que medem apenas a p-tau217. No Richet, da Rede D'Or, o preço é de R$ 1.800. Na Rede Dasa, os valores variam de R$ 841 a R$ 4.500. Para Leonardo Oliva, geriatra e presidente da SBGG, a p-tau217 é atualmente o marcador sanguíneo mais preciso para confirmar o Alzheimer em pacientes com sintomas.
Comparação com outros exames
Antes da oferta dos testes sanguíneos, a investigação dos biomarcadores dependia principalmente do líquor ou de exames de imagem, como o PET amiloide, que identifica o acúmulo de placas beta-amiloides no cérebro. Nenhum dos dois é oferecido pelo SUS ou coberto pelos planos de saúde.
Porto afirma que o exame de líquor custa de R$ 2.000 a R$ 3.000 e exige punção lombar. Já o PET amiloide pode chegar a R$ 10 mil e R$ 12 mil, além de depender de infraestrutura especializada. O exame de sangue, por sua vez, pode facilitar o diagnóstico em fases iniciais, segundo o neurologista, permitindo iniciar mais cedo medicamentos e mudanças no estilo de vida.
Um estudo publicado em julho na Jama avaliou o potencial da p-tau217 para estimar, com anos de antecedência, o risco de evolução para comprometimento cognitivo. A pesquisa acompanhou 2.684 idosos sem sinais de perda de memória no início do acompanhamento. Em um período mediano de 5,4 anos, 478 participantes evoluíram para algum grau de comprometimento cognitivo.
Entre os participantes com níveis altos da proteína, o risco em cinco anos foi de 24%. Nos que apresentavam níveis muito altos, chegou a 38%. Os pesquisadores ressaltaram, porém, que os dados vieram de grupos selecionados para pesquisa, e não da população geral. A aplicação dos resultados em decisões clínicas individuais para pessoas sem sintomas ainda depende de validação em grupos mais representativos.
Diagnóstico continua sendo clínico
Leonardo Oliva afirma que o diagnóstico continua baseado na consulta, na história do paciente e em testes cognitivos. O exame de sangue é utilizado posteriormente, como ferramenta complementar. “Pacientes assintomáticos não devem fazer esse exame”, diz.
O neurologista Fábio Henrique Porto afirma que, até o momento, o teste é destinado a pessoas acima de 55 anos com declínio cognitivo perceptível, e não ao rastreamento de indivíduos sem sintomas. Pessoas com histórico familiar, mas sem sinais da doença, não têm indicação de procurar o exame por conta própria.
Para Eduardo Zimmer, professor adjunto do Departamento de Farmacologia da UFRGS, a avaliação clínica isolada identifica corretamente a doença em cerca de 70% a 75% dos casos. Com a combinação de biomarcadores, o índice pode chegar a 91%.
Porto também aponta a possibilidade de ampliar o acesso ao diagnóstico fora dos grandes centros. Ele trabalha em São Paulo e em Londrina e afirma que as diferenças de infraestrutura entre as cidades mostram uma vantagem do exame sanguíneo diante dos exames de imagem e da coleta do líquor.
Relação com os novos tratamentos
Para Oliva, os testes podem ampliar o acesso aos tratamentos mais recentes contra o Alzheimer, indicados para fases iniciais da doença e voltados à remoção de placas de beta-amiloide do cérebro.
A Anvisa aprovou dois medicamentos dessa classe: lecanemabe, comercializado como Leqembi, e donanemabe, comercializado como Kisunla. Ambos são indicados para pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve. Os medicamentos não estão disponíveis no SUS nem são cobertos pelos planos de saúde.


