Mensagens, áudios, fotografias e documentos mantidos por Alexandre Ferreira Dias Santini descrevem a disputa entre o ex-sócio e Flávio Bolsonaro, além de episódios relacionados à vida pessoal e à atuação política do senador durante o governo de Jair Bolsonaro. O material inclui cobranças financeiras, relatos de festas privadas, pagamentos de despesas e uma ameaça envolvendo o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.
Santini foi sócio de Flávio na Bolsotini Chocolates e Café Ltda., franquia da Kopenhagen que funcionou em um shopping da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A loja apareceu nas investigações sobre as rachadinhas atribuídas ao período em que Flávio era deputado estadual no Rio. O Ministério Público do Rio examinou o negócio, posteriormente fechado. As investigações foram arquivadas por decisão do Poder Judiciário.
A sociedade terminou em conflito. Santini alegava que havia valores a receber e, em 28 de setembro de 2023, enviou ao gabinete do senador uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão. No documento, afirmou ter ficado no prejuízo após o encerramento da loja e registrou que Flávio havia investido R$ 200 mil em dinheiro vivo. O senador não respondeu à notificação.
A crise familiar
Durante a disputa, Santini procurou Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio, e apresentou fotografias, mensagens e outros registros sobre encontros privados com garotas de programa. Segundo o material, ele próprio teria organizado parte dessas reuniões e custeado despesas com recursos que circulavam entre os sócios.
Mensagens trocadas com uma agenciadora no Rio de Janeiro mostram Santini combinando um encontro com Flávio e outras pessoas. Em uma delas, menciona uma festa anterior no Grand Hyatt, hotel localizado na Barra da Tijuca. O local também aparece relacionado a fotografias apresentadas à mulher do senador. A diária citada para um dos apartamentos era de R$ 3 mil.
Após a crise no casamento, Flávio enviou uma mensagem a Santini pedindo que ele se afastasse de Fernanda. No texto, disse ter se arrependido de escolhas anteriores e afirmou que não voltaria a errar com a família. Também pediu que o ex-sócio deixasse Brasília. Santini respondeu que a mensagem provavelmente havia sido enviada à pessoa errada.
A negociação pelo fim da sociedade
As tentativas de acordo passaram por Fernanda e pelo escritório do advogado Willer Tomaz. Em 2023, Santini informou à mulher de Flávio que os advogados haviam sido procurados para tratar da disputa, mas que as negociações eram adiadas ou não recebiam uma resposta definitiva.
O ex-sócio também publicou nas redes sociais uma ameaça sem citar nominalmente o senador: “Não adianta tentar escapar, tudo é questão de tempo, pois provas não faltam”. Depois, afirmou que levaria as informações a órgãos de investigação e recorreria à Justiça para cobrar os valores que considerava pendentes.
Os arquivos reunidos por Santini incluem comprovantes de pagamentos, planilhas e documentos sobre despesas pessoais e investimentos imobiliários de Flávio. Também há registros de que Alan Belaciano, advogado próximo do senador, teria pago equipamentos de academia para uma casa adquirida por Flávio em Brasília, declarada pelo valor de R$ 5,9 milhões. As notas fiscais citadas somavam mais de R$ 90 mil.
Outro documento relaciona Belaciano à compra de um Rolex de ouro branco, da linha Submariner Date, destinado a Flávio. A aquisição ocorreu em 10 de fevereiro de 2022 e custou R$ 305 mil, conforme a nota fiscal emitida em nome do advogado.
Relações políticas e a ameaça sobre o STF
O material também descreve a circulação de amigos, advogados e lobistas próximos de Flávio durante o governo de Jair Bolsonaro. Entre os endereços citados está uma casa alugada no Lago Sul, em Brasília, usada por amigos do senador para tratar de interesses relacionados à máquina federal.
Santini manteve proximidade com Fabrício Queiroz, personagem ligado às investigações das rachadinhas, e com Frederick Wassef. Mensagens mostram Queiroz pedindo ajuda financeira e encaminhando cobranças a Flávio por intermédio do ex-sócio.
Em outra frente, os arquivos registram uma negociação de chocolates conduzida por Flávio, então deputado estadual, com uma associação de funcionários do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. O pedido envolvia bombons ou ovos de Páscoa. O valor informado era de R$ 50 mil, com desconto de 7,5%.
No fim de 2023, Santini enviou a Flávio uma mensagem sobre uma suposta intermediação em favor de um cliente que tinha processo no gabinete de Kassio Nunes Marques. Segundo o ex-sócio, Flávio teria tratado diretamente com o ministro, enquanto Belaciano cuidaria do caso. Santini também mencionou um jantar com a participação do chefe de gabinete.
O gabinete de Kassio afirmou ser praxe atender parlamentares de todos os partidos, mas não respondeu especificamente sobre pedidos de Flávio. Depois da mensagem, o senador aceitou marcar uma conversa em seu gabinete. Santini comunicou a pessoas próximas que a disputa estava encerrada.
A relação entre os dois começou no início dos anos 2000, no Rio de Janeiro, e se aproximou da família Bolsonaro. Durante a campanha de Jair Bolsonaro em 2018, Santini acompanhou Flávio até Juiz de Fora, onde o então candidato havia sido esfaqueado. Mais tarde, a amizade se transformou em conflito, e Santini passou a afirmar que conhecia segredos capazes de comprometer a carreira política do antigo sócio.


