Aos 87 anos, Helena Ignez mantém uma agenda ligada ao teatro e ao cinema, enquanto sua trajetória é revisitada em uma nova montagem inspirada na obra de Marguerite Duras. Em Savannah Bay é Você, espetáculo-instalação dirigido por André Guerreiro Lopes, a atriz aparece por meio de imagens e da voz e, na maior parte das sessões, também estará no palco.
A montagem estreia nesta quinta, 1º, no Itaú Cultural. Helena, porém, não participará presencialmente de todas as apresentações porque está envolvida com a turnê de Fim de Partida, na qual contracena com Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França, além de ter viagens previstas para Porto Alegre e Belém.
Memória, ficção e teatro
O espetáculo retoma Savannah Bay, peça protagonizada por Helena e Djin Sganzerla em 1999. A história acompanha uma jovem atriz que investiga o passado de Madeleine, uma velha dama do teatro, em busca da própria identidade. Entre lembranças, invenção e alucinação, a relação entre as duas vai sendo revelada.
Segundo André Guerreiro Lopes, a montagem trata o teatro como espaço de memória, desaparecimento e reinvenção. O diretor é marido de Djin e havia assinado as projeções da primeira versão, dirigida pelo cineasta Rogério Sganzerla, marido de Helena.
A ligação entre mãe e filha também atravessa a memória familiar. Em 1983, Djin, então com 6 anos, assistiu à mãe interpretar O Belo Indiferente, de Jean Cocteau, no Teatro Castro Alves, em Salvador. O espetáculo era dirigido por Rogério Sganzerla e apresentava uma mulher desesperada à espera do amante. O choro de Helena levou Djin a perceber, naquele momento, que a mãe era uma atriz.
Helena afirma que, no início da carreira, fazia teatro de maneira intensa. Recém-chegada da Bahia, emendava peças para garantir o sustento no Rio de Janeiro e levava a filha mais velha, Paloma, para as coxias. O reconhecimento pelo cinema se ampliou depois de O Padre e a Moça, filmado em 1966, e de O Bandido da Luz Vermelha, de 1968, quando conheceu Rogério.
Uma trajetória entre rupturas
Nascida em uma família aristocrática falida, Helena abandonou o curso de direito na Federal da Bahia para estudar artes cênicas. Foi nesse período que conheceu Glauber Rocha. O relacionamento terminou quando ela tinha 23 anos, já separada e com Paloma ainda bebê.
Na década de 1980, a atriz viveu como monja entre templos nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Índia. Ela considera que, mesmo tendo interrompido a carreira de atriz, não deixou o teatro. Durante esse período, participou de peças clássicas indianas, entre elas O Mahabharata, com um elenco de trinta pessoas.
Djin estreou no palco aos 19 anos, sob a direção de Antônio Abujamra, na peça O que é Bom em Segredo é Melhor em Público, no Rio de Janeiro. Além de atriz, tornou-se cineasta e dirigiu Mulher Oceano, de 2020, e Eclipse, de 2006. Ela afirma ter buscado independência artística e evitado construir a carreira a partir de referências diretas da mãe.
Helena vê na trajetória de Djin um avanço artístico e diz não ter tido condições ou distanciamento para filmar uma história tão violenta sobre a hipocrisia masculina como a de Eclipse. Para ela, o pensamento poético é a ferramenta em que mais acredita, enquanto o realismo provoca temor.
Novos projetos
No mesmo espaço da Paulista, a Ocupação Helena Ignez está em cartaz desde julho. A mostra reúne fotografias, documentos, trechos de filmes e materiais inéditos para revisitar a trajetória da artista.
Helena diz que nunca planejou o futuro e relaciona essa postura à falta de estabilidade financeira. Ao comparar seu percurso com o de companheiras de geração que foram para a Rede Globo, afirma que aquele lugar não era para ela e que continua fazendo escolhas voltadas ao presente.
Para o começo do ano, a artista planeja dirigir Dora, filme inspirado no pensamento e no estilo de vida de Luz Del Fuego, pseudônimo da bailarina, naturista e escritora Dora Vivacqua. Bibi Dória interpretará a personagem. Helena também tem prevista para maio a peça A Polícia da Memória, adaptação do livro da escritora japonesa Yôko Ogawa.
Antes disso, deve lançar Jardim dos Silêncios, de Henrique Dantas, filme em que atua. Sob a direção de Lopes, poderá contracenar novamente com Djin, além de Luís Melo e Matheus Nachtergaele. Entre os compromissos profissionais, Helena quer reservar mais tempo para Luna, filha de Djin e Lopes, que tem 6 anos. Ela também tem outras três netas e um casal de bisnetos.
Serviço
Savannah Bay é Você será apresentado no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, 149. As sessões ocorrem de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 18h. A entrada é gratuita, com ingressos reservados pelo site www.itaucultural.org.br. A temporada vai até o dia 18 e começa na quinta, 1º. Neste domingo, 4, não haverá espetáculo por causa da eleição.


